domingo, 4 de dezembro de 2011

O sentido da psicanálise e da filosofia para a meditação


Playing by the rules makes everyone else happy. Not playing by the rules makes me happy.
[Não faço a menor ideia de onde tirei isso...]
Não é feliz aquele que assim pensa.
É feliz o sábio que com moderação e firmeza está tranquilo e em harmonia consigo mesmo, não se consumindo com os males, futilidades e entusiasmos, nem se enervando por medo, nem ardendo de desejos e de cobiça.
Cícero
A busca da razão ou das razões de si próprio, o auto-conhecimento, é um caminho ora feito de muitas etapas, ora um caminho com muitas bifurcações.
Por uma dessas trilhas pode-se buscar suas razões e mesmo construir todo um corpo de teorias e hipóteses tal como Freud, Jung, Adler, Kleine, Lacan. É um campo especulativo que traz muitas contribuições para as pessoas em geral. Resta saber se este é um fim em si mesmo ou se é um fim que contribui para quem envereda por aí. É claro que esta opção sempre trará benefícios para quem a põe em prática, mas a maior parte das contribuições irá se dirigir para o impessoal, isto é, para “as pessoas” e não para si mesmo, por uma questão de foco.
Outra opção é a busca voltar-se para o praticante da busca, a própria pessoa à busca de explicações para sua maneira de ser. E, normalmente, esta busca tem lá as suas limitações em virtude dos filtros que nossos sentimentos nos impingem. É, sem dúvida, uma empreitada que encontra obstáculos consideráveis, na medida em que se antepõem à busca, a própria razão dela. Em outras palavras, o foco da busca é “desfocado” pelos sentimentos revividos, ou melhor, ressentidos. Os ressentimentos são como “anti-corpos” para a apercepção – percepção, compreensão e ilação – serena e isenta das próprias motivações. Surge, portanto, uma opção secundária, uma bifurcação: recorrer ou não à ajuda externa, de um psi – seja lá qual for a sua (dele) orientação, desde que seja um agente equânime – o que, por sua vez, também não é nada fácil.
Mais ainda, ao buscar explicações sobre a sua maneira de ser, um indivíduo poderá ter as suas atenções voltadas para uma busca de simples compreensão e apaziguamento de si para “sentir-se melhor”. É o caso da “busca da felicidade”, da “busca da paz interior”. Ou, alternativamente, o indivíduo irá buscar “a compreensão da sua razão de ser no mundo” e “o porquê das coisas do mundo”. Esta opção permite que o sujeito se situe diante do mundo e busque a apreensão da realidade para compreendê-la.
A meditação pelo primeiro sentido mencionado é meio-irmã das psicoterapias. As psicoterapias por sua vez são antônimas do ignorar, desconsiderar – e mais claramente ainda do “deixa pra lá”, “esquece isso”, “não esquenta com isso”, “nem queira saber disso”.
Há uma razão para as psicoterapias serem tão atraentes e ao mesmo tempo tão insuportáveis, execráveis (e até mesmo revoltantes). Elas se colocam em posição diametralmente oposta, isto é, “não deixe pra lá”, “queira saber”. E dentre as psicoterapias existe a psicanálise – ainda que os psicanalistas rejeitem essa proximidade – que é uma terapia da psique, sim, mas que guarda consideráveis e decisivas diferenças em relação às demais, inclusive com a psiquiatria e as neurociências. Sim, porque as demais psicoterapias são intervencionistas e invasivas como a psicanálise não é. Daí porque, entendo eu, a psicanálise está mais próxima e quase contígua às práticas meditativas.
Como assim?
A prática psicanalítica não apenas insiste e persiste e teima em não ignorar, não desconsiderar, não desconhecer. Ela vai além e lembra e obriga a meditar sobre as incongruências, irracionalidades, os motivos do sofrimento que vêm às nossas mentes, que promovem o sofrimento psíquico. Mais importante ainda, a psicanálise, por não ser intervencionista e invasiva, construiu toda a sua teoria sobre a máxima de limitar-se a induzir, abrir caminhos, a servir de guia. Mais do que limitar-se, o psicanalista deve intervir, quando absolutamente necessário, sem mínima sequer tentativa de interpretar, compreender, porque não cabe a ele, não tem conhecimento de situações e circunstâncias antecedentes e consequentes de um fato que causa este ou aquele sofrimento. A teoria psicanalítica tal qual as práticas orientais da meditação – em especial o budismo – preconiza que o sofrimento existe e é inevitável, porém, embora o psicanalista saiba disso, não menciona esta inevitabilidade. A contiguidade é muito evidente, mas não são a mesma coisa.
Uma coisa é certa, porém. A meditação requer e provoca, por sua vez, o apaziguamento e a busca da serenidade sem que sejam ignoradas as sequelas e dores do viver. Para dizer a verdade a preparação para a meditação requer estabelecer de início que a vida foi, está e será marcada por sofrimentos, maiores e menos significativos, mas ao mesmo tempo inevitáveis e por isso exigem perseverança na superação, para que apaziguar a mente e para que se ganhe a serenidade com o propósito de isentar o juízo das mágoas e tribulações diárias.
A psicanálise e a filosofia – ou, se preferir, o psicanalisar-se e o filosofar sobre as coisas da vida e do mundo  – têm claramente o condão de servir à reflexão. Sujeitos que se voltam para o meditar estão, em verdade, transitando de modo bem peculiar na busca de explicações que, de um lado, identificam a origem ou causa de seus atos e, do outro, buscam explicações sobre a natureza ou essência das coisas do mundo. No primeiro caso, no processo psicanalítico, a busca está voltada para o próprio eu, enquanto no caso da filosofia a busca se dá pelo viés do eu, visto que cada eu tem seu modo perculiar de olhar o mundo.
O budismo conta com uma prática que se volta para o amor compassivo, da compaixão e perdão incondicionais. É chamada metta. Designa o impulso mental da compaixão, que visa ao perdão, à tolerância, ao amor compassivo que pressupõe incondicionalidade, sem ressalvas, e que começa com o impulso para se perdoar. A partir do perdão pelas suas próprias imperfeições um indivíduo irá voltar-se para as outras pessoas, num processo de compreensão gradual segundo a intensidade do relacionamento que se tem com as outras pessoas. Assim, em um segundo estágio o perdão irá se estender àqueles mais próximos – pais, irmãs e irmãos, esposas e esposos, assim com parentes e aparentados próximos. Em seguida, amigas e amigos, parentes não tão próximos, mas que por este ou aquele motivo contam com a nossa afeição – e, portanto, mais percebidos como merecedores de nosso perdão. Em outro estágio o perdão é conferido a um círculo de relações ainda imediato como o dos vizinhos e companheiros de trabalho, escola, igreja, clube esportivo, pelada, enfim, não propriamente amigos e amigas, mas ainda assim pessoas de que gostamos ou podemos gostar. E essa graduação vai se voltando para pessoas com quem temos relações cada vez mais distantes, até, no limite, voltar-se para aquelas pessoas de quem não gostamos, inclusive aquelas de quem nos ressentimos e devotamos até mesmo inimizade.
A prática em si se desenvolve por meio de uma sucessão de votos de perdão. Bem entendido, voto como desejo sincero, ou vontade intensa, como ato volitivo, de intenção – parte do que se denomina carma.
Neste ponto, permito-me apontar e analisar alguns aspectos que resultam dessa proposição, ou mesmo prescrição.
O primeiro desses aspectos é a natureza de um voto - como ato volitivo - de intenção , como desejo sincero, como compromisso ou promessa solene, de natureza íntima, seja religiosa ou não, seja afetiva ou não. Sob esse aspecto, a intenção ou compromisso sincero, consequente, não será um ato volitivo pura e simplesmente. Depende de uma firme convicção. Desenvolver uma tal convicção não há de ser apenas uma volição sem fundamento. Claro, pode-se perdoar e dedicar compaixão a alguém - mas... sem compreender a real natureza do perdão e da compaixão? Sem ter a compreensão dos aspectos a serem objetivamente considerados em relação a um ser seu semelhante? Afinal de contas, perdoar quem,  o quê e por quê?
Ao identificar o sujeito e objeto do perdão, estaremos identificando alguém e as razões do perdão e da compaixão, certo? Pois bem.
Ao avaliarmos a natureza de uma pessoa veremos imediatamente as características pessoais dessa pessoa que são determinantes, circunstâncias e fatos dessa relação interpessoal, entre ela e eu. Os efeitos positivos e negativos devem ser considerados. Por que? Ora, porque sem ter consciência desses efeitos não há como qualificar a natureza de uma relação interpessoal – e menos ainda a natureza e o propósito desse perdão, compaixão, amor incondicional. E não há como objetivar, isto é, não há como definir a ação de perdoar e ter compaixão de modo transitivo, de modo que se transmite do eu agente para o objeto a pessoa. Ou seja, perdoar quem, o quê e por quê.
Em segundo lugar, e não menos importante, temos de tornar presente na lembrança fatos e circunstâncias que motivam sentimentos e emoções... negativos dessa pessoa em mim – pois afinal de contas não queremos perdoar? O que nos levará inevitavelmente a evocar ressentimentos, raivas, desprezo, e outros que tais. Por que? Bem, para objetivar nosso propósito de perdão e compaixão há de ser pelo que é ruim, e não pelo que é bom, certo?
E é este o estágio em que voltamos a nossa atenção para o outro e nos perguntamos qual a verdadeira razão dos nossos ressentimentos e raivas e desprezo e temores. É este o estágio em que devemos nos perguntar se, ao menos em parte, a verdadeira razão não estará no fato de sermos afetados por termos feito ou sermos capazes de cometer os mesmos atos com as mesmas naturezas que nos causam ressentimentos e raivas e desprezo. É o primeiro movimento mental que nos leva à humildade de reconhecer em nós defeitos, defeitos com que não estamos habituados a avaliar, simplesmente porque vemos e evocamos mais facilmente os ressentimentos e as raivas e o desprezo e a repulsa que nos são causados, e muito raramente nos nossos atos que possam causar e causam esses mesmos sentimentos nos outros. Neste ponto, sim, somos capazes de perdoar e devotar compaixão, realmente, a um outro.
Objetivar o nosso perdão e a nossa compaixão é impulso eminentemente subjetivo, que compulsa nossos sentimentos a partir dos sentimentos alheios – de que podemos apenas e tão apenas supor –, nossas emoções e reações a partir das emoções e reações que somos capazes de infligir aos outros.
Neste estágio, também, damos início a um processo de auto-conhecimento.
Não há de ser difícil perceber em nós mesmos que decisões impensadas, via de regra levam a ações mal-conduzidas. Ou para ser mais explícito, ora vão na direção errada e cometemos desatinos, ora nos levam a hesitar e não avançar, e daí a decisão não resulta em ação.
Corre por aí um certo refrão de que ao olharmos para nós e para o mundo estamos à cata da verdade, ora a nossa verdade, ora a verdade de que o mundo se reveste. Às vezes denominamos essa verdade de realidade. Ou – ah, Lacan... -  de real por “oposição” ao simbólico e o imaginário, e não como de fato serão anelados entre si.
Tenho uma antiga e penosa dúvida em relação a descobertas feitas por mim. Resumidamente: e daí?O que fazer com isso ou aquilo que descobri... – em mim mesmo, a meu respeito? Quando era muito jovem peguei-me a ler sobre auto- análise. Mais ou menos na mesma época muito li sobre filosofia – estava aí com os meus vinte anos ou até menos, acho. Na ocasião não me dei conta, mas de um certo modo estava buscando resposta por um e outro caminho. É claro que tudo que me chegava tinha como resultado um certo êxtase respeitoso de estar descobrindo a “verdade”, ora do mundo, ora sobre mim mesmo – pelo menos eu acreditava nisso. Com o tempo – e põe tempo nisso – acabei por desenvolver essa disposição de me perguntar: ‘tá certo, mas o que qu’eu faço com isso? Como tirar proveito dessas “descobertas”? É possível empreender esse tipo de viagem sozinho, por conta própria? Há quem afirme que sim. E há quem afirme que não. Vale, porém, a tentativa ainda que o resultado seja menor.
A ajuda de um psicanalista promove a qualquer momento a introspecção do analisando – e do analista também? – ou as sessões são o ensejo para o analista interpretar as falas que venham do sujeito, do analisando, ao acaso? Estas falas do analisando, que têm origem nas suas cogitações – no momento que for – são a única fonte para analista e analisando se debruçarem sobre um paciente e (tentar) atingir o conhecimento do self (de ambos?)? É certo que as interpretações permitem conhecer as origens das aflições – independentemente de sua importância para decifrar os enigmas em que cada um de nós se enreda? E se assim é para que servem as interpretações: são meras constatações que explicam comportamentos? E o que fazer com estas constatações, reorientamos nossas maneiras de agir, assim, sem mais nem menos, sem quaisquer julgamentos? E se “ajuizamos” nossa natureza, vamos julgá-la segundo quais referências, as nossas próprias ou as da sociedade, de nossa família, de nossos amigos, nossos colegas de trabalho? Eis aí a questão da aceitação: queremos ser aceitos pelo que somos ou por aquilo que esperam de nós? Ou do que, cada qual, esperamos de nós mesmos?
Você se conhece? Sabe porque se comporta de uma ou outra maneira como faz? Sabe o que deseja mudar na sua vida? Sabe como mudar? O famoso aforismo inscrito no templo apolíneo de Delfos – “conhece-te a ti mesmo” – invocado por Sócrates (sem esquecer que foi Sócrates que também afirmou que “só sei que nada sei”...), traduz uma das mais antigas preocupações do homem, isto é, as causas de suas dúvidas sobre o propósito de estar no mundo, das vicissitudes e do vive(ncia)r seus sofrimentos, de confrontar-se com suas próprias opções e defrontar-se com a natureza e o comportamento das outras pessoas. Pensadores, cientistas e pessoas comuns vêm há muito se debatendo com o tema da natureza humana e as suas próprias naturezas, suas escolhas, suas repulsas, seus anseios e suas apreensões e, mais do que tudo, o porquê e o para quê de suas escolhas e ações.
Pessoas que guardam em si impulsos agressivos podem se considerar “resolvidas” a partir dessa constatação? Digamos que essas pessoas passem a ter controle sobre seus impulsos, mas apenas porque têm controle sobre os pensamentos que sugerem agressão. Terão realmente resolvido esse impulso?
As pessoas acreditam que pelo fato de ter acesso privativo aos seus próprios pensamentos e sentimentos, também possuiriam um conhecimento profundo dos porquês do seu comportamento. Contudo, esse tipo de conclusão tem recebido pouco suporte das análises realizadas em laboratórios experimentais, em clínicas de pesquisadores, psicanalistas e psicólogos, assim como nas nossas próprias observações cotidianas.
Segundo Skinner (alguém sabia que o nome dele era Burrhus Frederic...?!), uma pessoa pode saber que “está fazendo alguma coisa”, “que tende a fazer alguma coisa”, “que fez alguma coisa” ou “o porquê de ter feito alguma coisa”. Perceber o seu próprio comportamento pode ser muito útil ao tentar mudar esse mesmo comportamento. Quantas pessoas não entendem porque não conseguem: parar de beber ou usar outro tipo de droga, parar de brigar com o cônjuge, estabelecer um relacionamento aprofundado com seus filhos, pais e amigos ou ter um emprego bem estável ou ser bem sucedido nos negócios?
Uma pessoa que conhece a respeito de si mesma é, em grande medida, fruto da interação com as demais pessoas? Descobrimos que somos bonitos ou feios, simpáticos ou tímidos, inteligentes, brilhantes ou não, pelo que as demais pessoas dizem a respeito do nosso comportamento? É nesse reconhecimento pelo outro, é no questionar e pelo olhar do outro que começamos a nos conhecer? Realmente?  Reflita: grande parte do que você acredita ser suas qualidades e aptidões não é fruto do que durante a sua vida as pessoas reconheceram em você? E de forma semelhante, grande parte do sofrimento humano também provém daquilo que não é reconhecido pelos demais: do que ignoramos a nosso próprio respeito ou do que não queremos reconhecer?
Quando nos defrontamos com uma situação que não nos satisfaz, percebemos que é preciso mudar. Uma pessoa pode saber que seu casamento não está bem, que está infeliz no trabalho, que não sabe lidar com o comportamento dos filhos, que tem ataques de pânico, ansiedade ou outros medos. Muitas vezes a situação de sofrimento é clara, mas o que mudar, como mudar e em que sentido mudar, não o é?
Afinal, por que precisamos nos conhecer para mudar? Será que mudar em qualquer direção será eficiente? Será que na maioria das vezes vai trazer resultados positivos em termos de qualidade de vida? Um indivíduo pode perceber que seu casamento não está trazendo mais satisfação e pode tentar mudar essa situação de inúmeras maneiras: arranjando um(a) amante, se afastando do cônjuge, bebendo, se separando, brigando, permanecendo deprimido ou efetivamente buscando o que não o satisfaz – mas em que medida seria possível mudar? Logo, se conhecer é um dos primeiros passos para uma mudança bem sucedida. Uma vez que nem sempre descobrir essas motivações e em que sentido mudar é fácil, a ajuda de um psicólogo ou psicanalista pode se tornar fundamental, especialmente porque a psicologia e a psicanálise tem desenvolvido técnicas para aumentar o autoconhecimento e, após a identificação adequada do problema, de produção de mudanças efetivas.
Para que vivemos? Qual é o motivo da nossa vida? Qual é o objetivo da nossa existência? Por acaso a vida consiste unicamente em nascer, crescer, reproduzir-se e morrer – às vezes, passar pela vida “em brancas nuvens” e se deixar morrer (“Só passou pela vida, não viveu”)?
É claro que, mais do que necessário, não há como viver em harmonia, ou perto disso, senão dentro de um estado psicológico adequado de bem-estar ou de busca deste estado, com uma profunda reflexão no que toca ao que se pensa, se sente e se faz, para podermos conhecer-nos a nós mesmos e elevarmos de forma positiva o nosso nível humano e espiritual – lato sensu (!), se me permitem –, nos voltar para uma reconstrução da nossa condição interna, a partir de nossa "desconstrução". A solução natural para os nossos traumas, complexos, aversões, fobias e todas as classes de transtornos psicológicos estará nas razões que nos provocam tantos danos, tantos sofrimentos, tantas ansiedades, angústias? Trata-se de uma busca persistente, não raro dolorosa, que vai à raiz dos nossos problemas sem se fixar na simples e única dependência de uma ou outras pessoas, ou de fármacos, antidepressivos, ansiolíticos, etc..
Eis afinal o propósito da meditação.
Necessitamos nos conhecer a nós mesmos para encontrarmos o sentido da nossa vida. A consciência é intangível, invisível, atemporal, indefinível? Ou será que a consciência pode se expressar como um conjunto de valores, de princípios, tais como o amor, a nobreza, sinceridade, compreensão, espiritualidade, humildade, fraternidade... Todos estes valores estão residualmente e potencialmente dentro de nós e à espera de serem totalmente desenvolvidos, de acordo com o nosso trabalho de crescimento interior. Cabe uma pergunta: serão estes valores e princípios universais? Acredito que sim. Mas seremos capazes de, a partir de nossas deficiências e imperfeições, formar um juízo sobre nós mesmos? E sobre o outro ou os outros?
Gostaria de discorrer sobre a relação entre decidir e fazer.  E desse modo tentar elucidar para mim e quem mais seja em que medida a união da meditação com a filosofar e a psicanalisar – ou qualquer forma de tratamento dos assuntos do espírito – pode fazer dessas três práticas uma poderosa arma para viver e conviver, e em muitos casos, vencer passo a passo as adversidades que a vida nos impõe. Nada mágico, nada necessariamente místico... Apenas, digamos assim, na medida em que nos harmonizamos primeiramente com nós mesmos, e em seguida com os outros, estaremos predispostos a nos harmonizar no mundo e com o mundo.
E isso quer dizer... O quê? Que essa harmonização implica sair de um estado de desarmonia, ora! Implica não se submeter a estados mentais conflitivos, aflitivos e, por conseguinte, “estressantes”. Atinge-se a equanimidade, constância e igualdade de ânimo, de temperamento, em qualquer circunstância, serenidade e tranquilidade de espírito.
Por que? Porque em um tal estado de espírito, pensamos de maneira desapaixonada, ajuizamos - e podemos decidir e decidimos - sem estar dominados por sentimentos e emoções acentuadas, seja de modo “negativo”, seja de modo “positivo”... Não se trata de nos alienar de nossos sentimentos e reagirmos sem qualquer emoção, mas reagir de maneira serena – a despeito deles! Com calma. Com aquela calma que pretendemos ao respirar fundo e "contar até dez"... E que geralmente a gente não faz e que em geral também não dá tão certo assim.
Tal calma está ao nosso alcance. Num tal estado da mente acalmada o mundo e as pessoas são o que sempre foram e serão, mas nós passamos a aceitá-los como são. E não como insistimos que sejam por uma interpretação ou juízo que fazemos a partir de nossas ansiedades, ressentimentos e frustrações, indignação e raivas, mágoas, etc..
Acalmar-nos é o primeiro passo. A calma depende de um ritmo e uma pulsação internos desacelerados, digamos assim. Um fator de agitação é, por um lado, a sucessão de pensamentos que perpassam nossa mente, com a lembrança de nossos ressentimentos e nossas ansiedades, nossas frustrações e nossas expectativas, sofreguidão, avidez, decepção, resignação, inconformismo, revolta, arrependimento, indignação. Para darmos este primeiro passo precisamos, pois, controlar a nossa atenção sobre algo, por exemplo, as nossas sensações. Ou sobre imagens. Ou sons. E mesmo palavras recitadas ou entoadas em cânticos.
Não se trata de criar uma vacuidade em nossas mentes, mas apenas preenchê-las com uma e única coisa. Isso nos leva - comprovadamente - a um estado de calma e irá permitir-nos por o foco de nossa mente sobre essa coisa. Ou seja, estaremos nos concentrando, literalmente nos colocando no centro de nós mesmos. A partir desse estágio podemos voltar nossa atenção para o mundo e para as pessoas que nele estão. Podemos calmamente julgar a realidade. Como ela é e não como queremos ou apenas gostaríamos que fosse. Podemos julgar as pessoas calmamente. Como elas são independentemente de nossas expectativas de como deveriam ser, independentemente de nosso entendimento de “o que seria melhor para elas”, ou de como poderiam ser melhores para nós, segundo o nosso juízo do que é melhor para nós, e não para elas. Não iremos julgar o mundo e as pessoas a partir de uma realidade que queremos impor. Isto porque a partir de uma consciência de nós mesmos não iremos nos considerar melhores porque somos tão imperfeitos quanto o mundo e as pessoas, uma auto-consciência que só se adquire com o conhecimento de nós mesmos. Tal conhecimento, adquirido com serenidade, irá nos permitir julgar a nós mesmos também com isenção, com equilíbrio e até mesmo com uma certa condescendência, alguma tolerância com nossas próprias imperfeições.
Como iremos nos conhecer? A partir da isenção de ânimo adquirida com o estado de serenidade podemos nos voltar para nossas imperfeições, nossas reações e emoções descontroladas, nossos impulsos hostis e as razões que nos levam a esses e essas bem como aqueles e aquelas. Trata-se de justificar a nós mesmos, entender sem inicialmente avaliar, atribuir juízos de valor baseados em valores morais, normas sociais, padrões de comportamento julgados adequados. Pois é a partir daí que podemos entender os outros e tornarmo-nos tolerantes, compreensivos, compassivos. Não se trata, porém, de isentar a si mesmo e aos outros de culpas. Erros devem, sim, ser punidos, porque há de existir um custo para quem sofre as consequências dos malfeitos. E quem os pratica deve pagar o preço que lhes for cobrado. É, pois, desse procedimento de julgar os outros que podemos formular um juízo a respeito de nós mesmos. Basta perguntar-se a si mesmo se o que recriminamos num outro alguém não tem o seu equivalente em nosso próprio comportamento, não é?
E assim, a cada pergunta feita a si mesmo, a partir do juízo sobre uma outra e qualquer pessoa, chega-se a algumas conclusões sobre a imperfeição alheia que reverbera ou se identifica com as nossas próprias imperfeições. Somente assim podemos, primeiramente, nos compreender melhor e nos perdoar a nós mesmos. Para então perdoar o outro.
Como julgar a nós mesmos e os outros? Precisamos nos voltar para conceitos como certo e errado, apropriado e in apropriado. O certo hoje é o mesmo certo de ontem e o que será certo amanhã? E quanto ao errado é a mesma coisa? Há uma dinâmica que a própria história humana e a cultura espelham a partir dos usos e costumes ao longo dos tempos, conforme o quadrante e o ambiente desta e daquela sociedade. Sem esta dinâmica a história e a cultura não se movimentam, sem as particularidades de culturas em diferentes lugares, em diferentes estratos das sociedades, todos seriam iguais e muito, muito improváveis.
Um campo específico da Filosofia, o da chamada filosofia aplicada[1], por um lado, tem sido e é predominantemente o campo que se dedica às ideias que têm origem nesta ou naquela sociedade, cada qual com seus usos e costumes, com valores bem próprios de suas respectivas culturas. E que têm grandes efeitos nas ações praticadas por esta ou aquela sociedade. O estudo de filosofia aplicada resulta em aplicações práticas como a ética e a ideologia política, no campo do direito, do ambiente, da medicina, da biologia, da engenharia e da arquitetura – tanto quanto a tão pouco lembrada filosofia da economia – e nas demais áreas de ciências humanas - isto é, das disciplinas que estudam a condição humana mediante métodos e processos sobretudo analíticos, críticos e especulativos. De um modo geral são consideradas ciências humanas a filosofia, sociologia, ciência política, antropologia, história, linguística, pedagogia, infelizmente ora sim, ora não a economia, administração, contabilidade, geografia humana, direito, arqueologia, teologia, psicologia, entre outras. Todavia, o mesmo se dá, embora com menos frequência, nas ciências ditas exatas - campos de ciência capazes de expressões quantitativas, estimativas e predições precisas, tanto quanto métodos rigorosos de testar hipóteses, especialmente os experimentos quantificáveis. Matemática, física, engenharia, química, estatística, assim como partes da biologia, psicologia e economia podem ser consideradas ciências exatas nesse sentido. É fato que via de regra estes campos das ciências exatas – hélas!  - não são considerados suscetíveis de reflexão e considerações de natureza filosófica. Infelizmente...
A filosofia aplicada é, por outro lado, de grande e inegável valia para os indivíduos no trato das questões de ordem pessoal, nas questões que dizem respeito à nossa atitude diante da vida, à maneira como nos situamos diante do mundo. Ou, se assim quiser, como reagimos à realidade. A filosofia aplicada se estende às ideias que também são evocadas pelos indivíduos a partir de suas vivências e que dizem respeito ao âmbito restrito desses indivíduos, ao seu universo íntimo. É uma vertente do pensamento filosófico, especialmente orientada para as atitudes do ser humano, para a reflexão sobre o sentido de viver no mundo. Para o julgamento do caráter e a natureza das pessoas de quem nos acercamos e nos afastamos, a quem dedicamos bons e maus sentimentos, a quem admiramos e desprezamos, de quem nos ressentimos e a quem amamos.
Sob este aspecto a filosofia se aproxima dos processos mentais que compõem o nosso universo psíquico. Está presente em diversas manifestações da inteligência que é formalizada nas inúmeras linguagens adotadas pelo ser humano – a linguagem visual e gestual, tanto quanto a linguagem dos signos verbais, da fala, musical, e assim por diante. Pode ser observada em imagens, em posturas e movimentos corporais, nas literaturas em prosa e em versos, na estrutura e harmonia de uma composição musical, e assim por diante também. A interpretação dessas linguagens empregadas permite perceber e ajuizar os seus possíveis significados. Mesmo que o seu autor-usuário não tenha a exata consciência disso... Afinal, toda e qualquer forma de expressão pode ser interpretada - objetiva e subjetivamente. E, mais importante, há que se considerar que significados podem ser percebidos, independentemente de quem os enuncia, deliberadamente ou não, consciente ou inconscientemente - porque passam "ao domínio público".
De um certo modo, a observação dessa estrutura e suas manifestações pode ser feita em relação ao homem. A estrutura de um indivíduo é composta de elementos físicos, corporais e mentais, mais especificamente psicológicos constituídos no consciente e no subconsciente. As manifestações se apresentam na dinâmica contida no comportamento deste indivíduo. O que implica observar e interpretar essas manifestações pelo seu significado, a partir do consciente manifesto e do ocasional descortinar do subconsciente, numa primeira etapa. Em seguida, penetrar no inconsciente oculto e emparedado!
Vale aqui fazer mais uma referência ao budismo, já que tomamos a prática de metta como elemento que já ensejou nossas considerações. Sim, o budismo tem suas bases assentadas sobre quatro proposições e um processo constituído de oito etapas a serem vencidas com vistas à consciência absoluta, à chamada iluminação. As quatro proposições são desenvolvidas em torno do sofrimento como condição vivencial, condição mundana, para o humano. As etapas são estágios da consciência a serem atingidos para dar consequência à prática da meditação.
O método vipássana tem propósito introspectivo, de investigação do íntimo – e o inevitável transitar pelo psicanalisar e pelo filosofar...  Consiste de técnicas de aguçamento da percepção, a começar pela atenção à respiração e secundada pela atenção às sensações do corpo, inicialmente aquelas sensações periféricas e, em seguida, às sensações interiores. Posto em outros termos, inicialmente o praticante terá de manter a sua atenção sobre os movimentos da respiração que entre e sai pelas narinas, do ar que entra e sai pelas narinas; e em seguida as sensações epidérmicas sobre toda a extensão do corpo. As sensações interiores têm de ser percebidas pela atenção que focaliza sistemas e órgãos internos, - como coração e sistema venoso, pulmão e vias respiratórias, órgãos digestivos e seu respectivo sistema. Estes estágios de aguçamento da percepção são causa e resultado sucessivos de um estado de relaxamento corporal que induz um estado de calma e harmonização da mente do praticante. O aguçamento aos poucos induz um estado crescente de calma e esta calma abre caminho para um aguçamento também crescente da atenção – por isto causa e resultado crescentes da capacidade de se acalmar e da capacidade de focalizar a mente, de início, nessas percepções. Pronto. Estaremos cada vez mais próximos do estado ideal de cogitar, de pensar, de analisar, de inferir – ou se preferir, de refletir, meditar sobre uma e qualquer ideia... Desde que seja uma de cada vez.
Uma advertência: este processo é gradual. E quando menciono gradual é porque ao longo de sessões de meditação a atenção irá se acentuar, mas também ao longo dos anos é que se dará essa conquista. Não se esperem milagres com resultados imediatos. E neste caso também não se esperem resultados permanentes. Há dias bons e dias ruins... Mesmo depois de muitos anos de prática... Porque nossas vidas irão apresentar-nos vicissitudes, frustrações, expectativas, essas coisas do viver a vida. Mais ainda, a alternância de perseguição de sensações com pensamentos "invasivos" do esforço pela atenção é em si exercício para meditação! Pode não ser a meditação mais estruturada, nem a mais sistematizada, mas este é um começo. Portanto, não há porque exasperar-se, não há porque desanimar. Faz parte. É gradualmente crescente a capacidade de se concentrar e de pensar com serenidade.
Mas cada coisa a seu tempo. No momento oportuno abordarei os aspectos relacionados a esses estágios preparatórios para a reflexão – sem ignorar que há inumeráveis técnicas de adestramento da atenção. Até mesmo porque em algum momento terei de mencionar a motivação que nos leva à meditação. E não são poucas. As devocionais, por exemplo, em geral implicam o emprego de preces.
Por ora, estou mais preocupado em me ater às questões relacionadas à psicanálise e à filosofia. À psicanálise por causa da busca em torno do eu, na acepção mais elementar e simples, sem complicações: o objeto é o eu, eu mesmo. À filosofia por causa da busca da razão de ser no mundo e, se assim quiser, do próprio mundo. E como muitos são os casos, essas questões ora parecem complicadas, ora parecem simples, senão mesmo ingênuas. Mas não vamos enveredar no âmbito teórico dessa e daquela. Afinal, queremos desenvolver uma maneira de investigar a nossa natureza, nosso caráter, nosso comportamento, nossas reações, nossas motivações...
Para, entendendo-nos, perdoar! Eu, tu, ele, nós, vós, eles.
Muito mais do que provável há de ser improvável ajuizarmos ou termos já ajuizado alguém e a nós mesmos com equanimidade, naquele estado de serenidade a que me referi. Geralmente esse ou aquele juízo é fruto de momentos, disposições e circunstâncias não serenos. Quando me julgo ou julgo quem quer que seja é porque algo me levou a precisar julgar. Muitas das vezes não é por motivo bom. É mais comum eu me recriminar a mim mesmo do que me ver como um sujeito legal. O mesmo acontece com relação aos outros. Isso tem tudo a ver com o fato de nossa disposição ser mais para lembrar de fatos e circunstâncias que nos magoam.
Comecemos essa investigação .
Em termos preliminares, é necessário exercitar a autocrítica com perguntas a si mesmo quanto a comportamentos – essa é fácil – que sistematicamente recriminamos em nós mesmos. E essa lista pode ser  longa...
Cabe aqui ainda uma consideração (dentre as muitas considerações): a noção de juízo de valor. As práticas religiosas preconizam a prática do bem e até mesmo do Bem Supremo, partindo de suas próprias noções do que é certo e do que é errado, do que é normal e anormal. Primeiro é de se levar em consideração que tais noções não são aplicáveis a todas as culturas e, portanto, não são universais. Também não são aplicáveis a qualquer tempo porque as sociedades humanas trocam valores como trocam de modas de vestir, de expressar-se, de linguagem e mesmo de acepção das palavras. Palavras pronunciadas hoje corriqueiramente escandalizavam - e em muitos casos ainda escandalizam algumas pessoas - aqueles menos afeitos a vulgaridades, grosserias, incontinência de palavreado (e outras incontinências quando as pessoas fazem xixi na rua com naturalidade). E, aliás, existem culturas que convivem com naturalidade com excrecências e com quem as deixa pelas ruas...
As práticas meditativas mais em uso preconizam tanto a retidão, o que é justo e correto, como conceitualizam a normalidade e a anormalidade. Também sobre estes aspectos devem prevalecer as observações que aqui fiz sobre culturas e temporalidade. É claro que a referência cultural deve ser limitada ao âmbito da saúde e vista pelo que é a da patologia em seu sentido clínico. Perversões são patológicas, assim como toda e qualquer forma de crueldade quaisquer que sejam as culturas.

[1] Pessoalmente discordo um tanto dessa designação porque desde a origem a filosofia visa à adoção de seus princípios para benefício do ser humano. Não tem, pois, um fim em si mesmo. O que na verdade acontece é que a filosofia acadêmica se afasta muito desse propósito quando envereda pelo campo conceitual e da linguagem cifrada, preciosa e confusa. Turva a inteligência das pessoas comuns ao invés de iluminar entendimentos. Mas, enfim, o mesmo se dá em outros campos do conhecimento que me permito supor visam alguma aplicação... Jacques Lacan justifica seu distanciamento com a linguageria – o discurso psicanalítico do analisante, também considerado objeto de escuta psicanalítica, na situação psicanalítica de pesquisa e de aprendizagem; como ele é cotidianamente objeto de escuta na situação psicanalítica de tratamento e de supervisão – para afastar-se da intromissão do grande Outro. É. Pode ser, mas não sei se isso mais atrapalha do que ajuda.

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