domingo, 4 de dezembro de 2011

Para que serve a filosofia? E para que serve a psicanálise?

Diálogo Filosófico
       As coisas não são o que são, mas também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.
       Então, que são as coisas? - inquiriu o estudante.
       As coisas simplesmente não.
       Sem verbo?
       Claro que sem verbo. O verbo não é coisa.
       E que quer dizer coisas não?
       Quer dizer o não das coisas, se você for suficientemente atilado para percebê-lo.
       Então as coisas não têm um sim?
       O sim das coisas é o não. E o não é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.
O professor tirou do bolso uma não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno, porque o chocolate era não.
Carlos Drummond de Andrade

O que é Filosofia?
O ser humano é o único animal condenado, ao que parece, a pensar e a sofrer pelo pensamento. Pensar, refletir, é o fruto proibido que chegou às mãos do humano a partir do momento em que se re-conhece de modo interminável. E o conhecimento leva-nos a todos a amar o saber e admitir que nada se sabe. Um amor eterno de perseguir o intangível, inalcançável saber. Indiscutível o fato de a filosofia ser a própria manifestação da perplexidade do ser humano em face do real, do mundo.
É frequente nos perguntarmos o “o quê” e “o porquê” das coisas. Todo indivíduo é tomado de algumas ou muitas dúvidas quanto à sua vida, à sua própria existência, sua razão de viver, assim como em relação ao sentido das coisas em geral, fora de si e de uma realidade que se constitui à sua volta. Quem nunca teve dúvidas quanto à razão das coisas em geral e dúvidas quanto a certas coisas em particular? Quem nunca teve dúvidas relacionadas com as coisas em geral, aquelas que se referem a porque as coisas são assim ou assado, dessa maneira e não de outra? E aquelas que estão relacionadas à gente, a nós mesmos? Por que somos assim ou assado e por que nos comportamos dessa maneira e não de outra? Às vezes esse tipo de questionamento se dirige para a própria fé religiosa. A dúvida nestes casos pode ser oculta, ou não. Diante de reveses que nos vêm ao longo da vida somos assaltados por dúvidas quanto à existência de Deus, ou de quaisquer  divindades, ou mesmo quanto à real natureza dos desígnios deste ser supremo ou dos seres que regem nossa existência. Claro que essa crença lembra um pouco aquele gracejo que pode se ouvir de uma vendedora em uma loja qualquer e contido na frase “tem, mas está em falta”.
Acho, como achólogo que sou, que o ensino de filosofia deveria ter começo pela resposta a esse primeiro conjunto de  questões. Afinal, filosofia será que só serve ao impulso gozoso dos filósofos? É pura fruição do intelecto?
Talvez estas perguntas devam ser antecedidas de uma outra: qual o fim, o propósito, o objeto da filosofia? Para que serve a filosofia?
Para preencher esta primeira lacuna de compreensão faço opção por convencionar que a etimologia da palavra filosofia esclarece melhor que “filosofia (do grego Φιλοσοφία, literalmente «amor ao saber»)  é o estudo de problemas fundamentais relacionados ao conhecimento – algo que se busca a partir de um questionamento da razão de o homem ser, estar e existir no mundo . É claro que a partir daí uma sucessão infindável de entendimentos  e questionamentos dá origem a perguntas e respostas, muitos argumentos e inferências, surgem em séries intermináveis e em ciclos que se repetem a cada vez com feição diversa. A cadeia de questionamentos e respostas remonta à antiguidade mais remota, e não é difícil acreditar que uma tal questão tenha mesmo ocorrido a algum dos primeiros humanoides, ainda que a seu modo muito rude e primitivo, por simples ideia, uma cogitação mesmo sem a materialidade da fala ou da palavra, sob a forma de algo como  o quê..? ou de por quê...?  E acho que estas duas perguntas resumem o significado de filosofia simplesmente como método de busca do que é e do por que é.
E, como diria, dona Yvette, minha mãe (ela, outra vez), aí é que está!  O que é uma coisa diz respeito à sua essência, sua natureza – um artefato, um apetrecho, um ato, um processo. O porquê de uma coisa diz respeito à sua razão de existir, para o que serve essa coisa. Certo?
Esta busca do significado da existência de algo, ou alguém, pressupõe ser e estabelece que o indivíduo está no mundo por algum motivo e que a ele, o motivo, deve servir de um modo ou de outro. Ou não! Mas vamos partir daí.
É verdade que tudo isso é meio vago. É isso mesmo. Essa vaguidão é a origem, e seu preenchimento se constitui na fonte do esforço de compreensão do ser lato sensu. Deu origem a toda a teoria do conhecimento – ou gnoseologia, ou epistemologia, ou qualquer outra denominação pomposa que se lhe dê – e ao estudo das “causas primárias e dos princípios elementares” do conhecimento e do ser, aquilo que se chamou metafísica, e simplesmente significa para além da física, ou do físico, para além daquilo que tem materialidade.
De um modo geral esta questão começa a ser abordada de modo pouco apetente, que mal provoque ou estimule algum interesse. Quase sempre entra no desvio da busca da verdade, ou melhor, da Verdade. E aí envereda por um universo complicado de abstrações e de “logismos”, palavras ou expressões que não são neologismos por não serem propriamente novas, mas são construções próprias de um grupo profissional ou sócio-cultural – neste caso, os filósofos. Ou seja, o universo do jargão que se constitui num discurso ou fala hermética, de compreensão difícil, e que não raro resulta numa linguagem considerada por alguns estropiada, com inúmeros elementos de origens diversas, não raro formada por “estrangeirismos”, dentre os quais alguns mais exóticos de origem oriental!
A bem dizer, até certo ponto o uso de jargão acaba por se tornar necessário para benefício da síntese e da parcimônia de palavreado. Mas o fato é que esse tal palavreado sucinto e especializado torna o acesso bastante inacessível para quem não participa do grupo erudito.
Deixemos, porém, essas divagações de lado.
Há duas ramificações ou vertentes principais para onde podemos dirigir nossas preocupações – que não são de modo algum opostas ou conflitantes, mas que devem ser tratadas como são, isto é, âmbitos distintos. Embora possam muito contribuir uma para outra. Se buscamos o conhecimento em nós ou fora de nós o universo de cogitações que corresponde a estes propósitos há de ser muito, muito distinto, mas no final de cada um de seus percursos irão felizmente se encontrar. 
O conhecimento e compreensão daquilo que está fora de nós, no sentido de explicar a essência das coisas, a condição em que estamos diante do mundo, da realidade, e a própria razão de nossa existência, faz em geral com que nossas cogitações se baseiem em convicções obtidas ou conquistadas com o uso da razão, ou mesmo crenças, místicas ou não, religiosas ou não, mas crenças que têm por fundamento a fé. E se, pela fé, estivermos convencidos de existir algo ou um ser que se impõe sobre todas as coisas, esse convencimento irá requerer que nossas cogitações se baseiem na fé religiosa ou difusamente mística dessa existência. Aqui existem variações de todo tipo. Desde a convicção de algo ou um ser único, à convicção de algo imaterial e difuso que congrega forças ou, se quiser, fontes de energia que dirigem o universo, o todo e a todos. Entre um extremo e outro estão as crenças de que há mais de um ou mesmo inumeráveis seres ou forças que determinam o curso do universo e tudo nele contido.
Significa que nossas vidas são determinadas por este ou aquele ser, ou por estes ou aqueles seres. Significa que mesmo a nossas opções são determinadas e nossos desígnios são externos – e mesmo transcendem−, à nossa determinação, porque até mesmo nossas escolhas são determinadas por estes seres e forças. É esta a razão dos cultos devocionais e das oferendas como rituais de obtenção de favores, a razão primária das preces e dos sacrifícios. Isso nos colocará sob a condição de instrumentos, e não de atores de nossas vidas. E consequentemente nos retira a responsabilidade absoluta sobre nossas ações.
Neste caso a filosofia se voltará para o significado do ser supremo, das forças superiores aos desígnios humanos e à própria natureza. Este é o caminho da espiritualidade, em seu significado de conjunto total das faculdades intelectuais, quer como um princípio ou essência da vida incorpórea – como religião e tradição espiritualista da filosofia −, quer como um princípio material  − como um conjunto de leis da física e da biologia que dão origem e moldam nosso organismo. Fora do contexto religioso, "o espírito" é a "substância" dos seres humanos, a parte de nós mesmos que nos torna iguais, irmãos. Fatores como a raça ou o contexto de vida são as eventualidades, os "acidentes" que nos diferenciam. Neste sentido o termo espírito tem sido usado como sinônimo do conceito grego de pneuma[1] por Hegel, Ken Wilber e Friedrich Schelling, isto é, pura e simplesmente o sopro da vida, o sopro vital.
Há então um, digamos, outro eixo de nossas preocupações situado entre o mundo com as coisas que nele se encontram e as criaturas humanas, nós. Não um nós impessoal, mas o conjunto dos “eus”, cada um dos indivíduos em si.
Na opção de atingir o conhecimento e compreensão deste ser, estar e existir em nosso universo íntimo, em nosso universo interior,  estaremos diante de outra modalidade da filosofia que mais do que cogitada é aplicada e, por outro lado, também de grande e inegável valia para os indivíduos no trato das questões de ordem pessoal, nas questões que dizem respeito à nossa atitude diante da vida, à maneira como cotidianamente nos situamos diante do mundo. Ou, se assim quiser, como agimos e como reagimos à realidade.  Há todo um contexto erudito que aborda a questão da filosofia aplicada que eventualmente se situa no campo dos “logismos” a que me referi anteriormente.
A filosofia aplicada, claro, vem se estendendo às ideias evocadas pelos indivíduos a partir de suas vivências e que dizem respeito ao âmbito restrito dos indivíduos, ao seu universo íntimo. É uma vertente do pensamento filosófico especialmente orientada para as atitudes do ser humano, para a reflexão sobre o sentido de viver e como viver no mundo, para o julgamento do caráter e a natureza das pessoas de quem nos acercamos e nos afastamos, a quem dedicamos bons e maus sentimentos, a quem admiramos e desprezamos, de quem nos ressentimos e a quem amamos. Sob este aspecto a filosofia se aproxima dos processos mentais que compõem o nosso universo psíquico. E se confundem com ele na medida em que não apenas se confundem com estes sentimentos como também determinam nossas emoções, a maneira como nos manifestamos por causa deles.
O conhecimento do eu é uma forma de percepção da sua própria natureza. É, porém, um estágio do conhecimento que se situa para além da mera percepção da natureza do eu em si. É imperioso referir-se a. Balizar a própria natureza do ser em si em relação a. Ao que está fora, ao que é exterior e até mesmo aquilo que é estranho. Ao que é exógeno e excêntrico em relação ao eu em si.
De volta a Sócrates
Jacques Lacan propunha o retorno a Freud, de quem se fez paladino e a quem dedicou grande parte de sua vida.  Lacan, por outro lado, cunhou a frase “Socrate [est le] précurseur de l’analyse”.  Há quem faça ressalvas a esta habilitação com um jogo de palavras, por sinal, esporte predileto do próprio Lacan. Dizem alguns que Sócrates foi precursor antecipando a psicanálise sem tê-la praticado. Faço eu, pois, ressalvas à ressalva. Parece-me que o simples fato de Sócrates remeter ao aforismo “Conhece-te a ti mesmo”, colocava-se a si mesmo já em campo para fazer o seu esporte predileto: a ironia (no sentido etimológico ) de refutar incessantemente seu interlocutor na busca do significado verdadeiro das coisas e, sim, revelar o verdadeiro ser por trás das aparências, para introduzir a reflexão no mundo de opiniões.
Sócrates não pregava nem fazia apologias diretamente, sequer teorizava. Limitava-se a praticar sobretudo a crítica das opiniões que lhe levavam questionando-as. E se inclinava sobre o conhecimento do em si, o campo da conduta humana, sobre aquilo que as aparências mostram, e nelas buscar o sentido daquilo que estava oculto, por trás do revelado, e introduzia a reflexão no mundo das opiniões. Pelo que se pode depreender dos relatos de Xenofonte e, claro, Platão, o objeto de Sócrates era a busca da verdade como fundamento das ideias.
Há pelo menos uma evidência de que Sócrates enveredava pelo âmbito do pessoal ao questionar Alcebíades sobre sua habilitação para a política e a gestão da coisa pública. Contestou sua habilidade para se aperceber da justiça. Fico, portanto, com a solução de Lacan.
O que é Psicanálise?
A psicanálise, por sua vez, é um campo da ciência humana com uma natureza especulativa cujo foco principal, mas não único, é o indivíduo, o ser humano como tal ou, por outras palavras, busca discernir causas e efeitos do comportamento do homem tanto quanto promover o ajustamento do homem sobretudo a si mesmo.
É o caso de nos perguntarmos, primeiramente, se Sócrates deixou de praticar algo parecido, muito parecido. Acho que não, até por inevitável porque pode-se atribuir a Sócrates ser um chato implacável, mas não desonesto.
Em segundo lugar, cabe a pergunta de que em que medida a psicanálise se confunde com a filosofia naqueles aspectos e propósitos da tal busca da verdade, ao menos no âmbito da intimidade, do íntimo do indivíduo.
Voto decididamente com Lacan quanto à precursão de Sócrates, sem restrições.
Não é este, pois, meu foco, mas, sim, a medida em que filosofia e psicanálise se aproximam ou até mesmo se confundem, de um lado, pelo âmbito de seus questionamentos respectivos e, de outro, pela própria prática, a práxis. Claro, estou me referindo àquilo que se refere ao indivíduo por suas escolhas, suas atitudes, na sua relação com o mundo, com a realidade. Claro também, naquilo que diz respeito à busca da felicidade. Claro ainda mais, na prática que parece sugerir Sócrates.
Repete-se aqui um mesmo quadro de nossas preocupações. Se, para contrariar Fernando Pessoa, se a nossa atenção estiver voltada para as coisas do mundo, as coisas em geral, caberia perguntar, por exemplo, por que a lua e o sol, a nossa lua e o nosso sol existem, por que os seres humanos têm essa ou aquela natureza, por que a água do mar é salgada e a dos lagos é doce, por que faz frio ou calor, por que há desertos e por que há pântanos, e assim por diante.  Se olharmos para as filosofias em geral, da Hélade ou da Ásia, constamos que os questionamentos começaram por aí... E, admitamos, não há de ter sido só com aqueles ou com esses.
Claro que também podemos perguntar por que existem crueldade, desigualdade, agressividade, hostilidade, miséria, guerra, fome, e tantas outras coisas ruins, assim como podem existir coisas boas como solidariedade, caridade, compaixão, beleza, ternura, amor, alegria. Enfim, por que existem contrastes, divergências, incoerências no mundo e entre as pessoas? E desta forma, o primeiro passo para a filosofia é a inquietação que conduz ao questionamento. O objeto da filosofia é a reflexão, o uso do pensamento que permite que nos distanciemos dos fatos aparentemente comuns para buscarmos seus fundamentos. Se tomarmos o caminho do Buda Gótama, a partir da proposição contida nos quatro fundamentos do pensamento búdico, a constatação é de que sem esse distanciamento, que se traduz por equanimidade, não há como chegar seriamente a lugar algum.
É natural, pois, indagar, por exemplo, porque o ser supremo criou o mundo e a nós imperfeitos se poderia em sua suprema sabedoria criar o todo perfeito? Implicância? Pirraça? Ou para testar a nossa capacidade de bem decidir por este ou aquele carma?  Como será também propositado indagar que, diante da repulsa à corrupção, qual o papel do indivíduo, inclusive nós mesmos, a ser buscado para fazer frente a “esse estado de coisas”?  Será que o exercício da cidadania não abrange a defesa de seus direitos também como obrigação cívica, como contribuição à defesa das leis constituídas? Se nos mostramos indignados diante do desrespeito às leis por quem quer que seja por que adotamos uma atitude de tolerância, de pouco caso ou até mesmo nos poupamos das inconveniências de proteger nossos direitos por menor que seja?
Lembra que há pouco eu me referi ao fato de a filosofia se aproximar dos processos mentais que compõem o nosso universo psíquico e se confundem com ele na medida em que não apenas se confundem com estes sentimentos como também determinam nossas emoções, a maneira como nos manifestamos por causa deles?  Mas como e por que surgem esses sentimentos que tanto embaraço causam e nos levam a reações emocionais tão, tão despropositadas ou dolorosas?
Voltando a nossa atenção para o eu, por que deixamos de fazer alguma coisa da maneira certa para fazermos da maneira que sabemos ser errada? Por que reagimos de maneira impulsiva quando sabemos que melhor fazemos se adotamos uma atitude mais refletida? Por que deixamos nossas obrigações para a última hora ou o último dia e nos poupamos do atabalhoamento de resolvê-las na última instância e não em um momento qualquer anterior? Por que nos deixamos levar por tentações consumistas e nos encrencamos com dívidas no cartão de crédito? Por que comemos demais e não apenas o suficiente para nos alimentar? Por que somos capazes de abarrotar nosso armário com roupas se o que temos já mais do que nos basta?
A questão central de nossas atitudes equivocadas é o uso da irracionalidade no lugar da racionalidade. E não para aí, mas sim nas motivações de nossos impulsos. Como diz Hobbes, somente o homem tem o "privilégio do absurdo", e o que ele está querendo dizer é que somente a criatura racional pode ser irracional. Irracionalidade é um processo ou estado mental − um processo ou estado racional − que falhou e falha. Como isso é possível?  O paradoxo da irracionalidade surge a partir daquilo que está envolvido em nossas maneiras mais básicas de descrever, entender e explicar estados e eventos psicológicos.
A filosofia está presente nas ciências, nas artes, nos mitos, nas religiões, no cotidiano. Embora possamos afirmar que a filosofia esteja presente nas diversas manifestações do humano, ela não se confunde com nenhuma dessas formas de conhecimentos específicos, mas as fundamenta, senão mesmo as orienta. Dá assim origem a uma modalidade de filosofia aplicada, sim, a campos específicos do conhecimento e a criatividade humana sob a forma de preceitos e códigos de ética em todas as vertentes do conhecimento humano, desde as ciências ditas humanísticas às ciências exatas − estas hoje mais do que nunca carentes de norte para aquilo que afeta o ser humano. Desse modo surgiram ao longo do tempo segmentos desse saber como a bioética, a ética ambiental – que deu origem, por exemplo, às ideias do desenvolvimento sustentado. Essa busca de fundamentos faz da história da filosofia, como já foi dito, “uma história sem fim, porque diz respeito a todos em todas as épocas”. Por isso, é sempre oportuno reavivar a lembrança das diversas escolas do pensamento filosófico, não por simplesmente admitir que tudo já foi pensado, mas sim porque nunca é cedo ou tarde demais para filosofar, é fato. Mas também porque os tempos passados eram outros, um outro contexto, um outro ambiente com usos e costumes diversos, determinando normas de convívio diversas, desde um quadro de relações entre pessoas e nações, a um contexto tecnológico e normativo que não se repetem ao longo da história humana. Simplesmente porque houve e há, assim como haverá, algo de novo a se considerar. Há duzentos anos atrás, por exemplo, não se considerariam os efeitos da industrialização, da automação, da robótica e da internet nas relações do trabalho e entre as pessoas.
No que toca à filosofia aplicada quero me ocupar do que poderíamos chamar de filosofia existencial, ou melhor ainda, de filosofias existenciais porque existem tantas filosofias existenciais quanto há seres humanos, com suas peculiaridades, suas histórias, fantasias cultivadas e expectativas frustradas, suas amarguras, suas lembranças. E seus ressentimentos. Sim, os ressentimentos são uma parcela significativa do que constitui cada uma das filosofias existenciais, aquelas que se centram no homem, como ser individual e singular.  Sim, porque este é o âmbito da psicanálise como o é da filosofia. E é neste âmbito que tramita uma das vertentes de filosofia aplicada e muito especialmente no que se dedica a assistir os aflitos. É justamente onde se encontram filosofia e psicanálise ou, nas palavras de Lacan, a antifilosofia e a psicanálise.
Cabe aqui um parêntese.  A idéia de utilizar pensamentos ou teorias filosóficas para solucionar problemas, conflitos ou crises existenciais dos indivíduos assumiu ares de novidade, a partir de Gerd Achenbach, na Alemanha, em 1981. Ganhou denominações que lhe conferem a ideia de que é distinta da filosofia ancestral, ora sendo denominada filosofia prática, ora filosofia clínica, mas também é denominada aconselhamento filosófico, quando a rigor quando muito deveria, no meu modesto entender, denominar-se práxis filosófica e estabelecer similaridade com a prática ancestral sem lhe atribuir a pretensão de inovar. Curiosamente essa idéia encontrou ressonância na França, com Marc Sautet; nos EUA, com Lou Marinoff; no Brasil, com Lúcio Packter, e em vários outros países. Esses autores entendem que praticar a filosofia significa refletir sobre os problemas cotidianos das pessoas.  A prática pode ser conduzida sob a forma de reflexões em grupo, ou entre um “conselheiro filosófico” ou “filósofo praticante” e um paciente. No Brasil, Lúcio Packter denomina de "filósofo clínico".
O que surpreende é atribuir a natureza de novidade a essa prática, e mais ainda as manifestações de censura e repúdio da parte de terapeutas, sob a alegação de que os profissionais que a praticam não estão habilitados para diagnosticar “causas orgânicas de distúrbios”.
Claro que há críticas a essa modalidade, algumas até mesmo ferozes, assim como esta última com natureza corporativista. Procuram outros lhe retirar legitimidade por razões, não de eficácia, mas até mesmo de ordem ideológica.  A questão beira a postura inquisitorial.
Cabe aqui uma digressão. Não há dúvida alguma que a filosofia ancestral voltou-se para as questões mais elevadas que inquietaram e ainda hoje inquietam os homens. Há provas, porém, que não desconsiderou as inquietações do homem como indivíduo assediado pela aflição. O monumental elenco de citações que falam de amor, amizade, família, paternidade, aborto, suicídio, morte, inveja, honra, fraternidade, solidariedade, e tantas outras, responde pela evidência deste tipo de preocupação com a natureza e o comportamento do ser humano. A literatura ficcional, a cinematografia, a pintura e a escultura, a poesia (!), a música, enfim, as artes até mais do que as ciências nos dão mostras eloquentes desse fato. Afinal, “a obra de arte só tem valor se for fiel a seu tempo” porque como disse Picasso, Não há arte do passado nem do futuro. A arte que não é do presente jamais será arte. Não se pode, tão simplesmente, também retirar do campo da filosofia as grandes contribuições do pensamento indiano, árabe, chinês ou japonês  simplesmente por serem orientais.  Assim como também não se desprezará a importância do pensamento do guru Nanak, do Buda Gótama ou Confúcio (Kung-Fu Thze). Sempre presentes estão preocupações com a aflição, o sofrimento, a ambição, a cobiça, a luxúria.
Não há dúvida também que haverá sempre críticas por qualquer das opções que qualquer um de nós faça em relação ao que quer que seja, simplesmente porque a razão que me guia não há de ser jamais a mesma razão que guia o meu vizinho, o meu pai, o meu colega de trabalho, o meu chefe, e assim por diante.  Tal como na parábola do burro, do velho e da criança, ora o velho conduzir o burro desmontado era uma tolice, ora o burro montado pela criança era uma crueldade com o velho, ora o burro montado pelo velho era uma crueldade com a criança, ora o burro montado pela criança e pelo velho era uma crueldade com o burro. Não há como conciliar sempre com todos os pontos de vista e menos ainda com todas as culturas.
Estas mesmas críticas em alguns casos consideram que o pensamento que se volta para o indivíduo é impróprio por não levar em conta a imperiosa necessidade de o homem ser um agente de modificação da sociedade, das relações econômicas, da política e assim por diante. E o que fazer do aforismo gnōthi seauton , conhece-te a ti mesmo, nosce te ipsum? Seriam um convite à alienação? Seriam Brias de Priene, Quilon de Esparta, Heráclito, Pítaco de Mitilene, Pitágoras de Samos, Sólon de Atenas,Tales de Mileto, Sêneca, Ovídio, sem falar no próprio Sócrates, todos agentes da alienação? Há, convenhamos, um certo exagero, assim como grande desapreço pelas contribuições de pensadores à reflexão sobre a natureza humana, seus desassossegos, suas inclinações, suas criações. Sim, porque existem a filosofia do direito, a filosofia da história, a filosofia da matemática, a filosofia da economia, e assim por diante. Todas constituem o que se denomina filosofia aplicada.
E, afinal, como haverá de se sair um ser humano nesse intento de modificar, a partir de que concepções do bem e do bom, como ajuizar o outro, se em si não detém o melhor juízo da maneira como seus sentimentos são interferentes?
Basta de digressão.
Pessoalmente discordo da denominação de filosofia aplicada. Simplesmente porque não estou convencido de existir filosofia que não vise de um modo ou de outro o convencimento e a sua aplicação, a aplicação de seus princípios... Acredito tão apenas nesta divisão a que me referi, a filosofia que tem por objeto o mundo, a realidade, as coisas, e a filosofia que se volta para os indivíduos, mas sem ismos. Pessoalmente também creio que tomarmos o juízo alheio como ponto de partida não cabe. 
Fico com Sócrates e tenho a firma convicção que a resposta virá mediante a procura da verdade própria, do seu próprio eu, no interior do homem, pela maiêutica, pelo parto das ideias. Sócrates conduzia este parto em dois momentos: no primeiro estágio, Sócrates suscitava a dúvida em seus discípulos de modo sistemático mediante o processo de ironia, questionamentos contrapostos sucessivamente sobre cada argumento, ideia, conceito apresentado por seu interlocutor. Em seguida, interrogava esta pessoa para fazê-la expressar conhecimentos adormecidos. Portanto, buscava despertar noções escondidas no seu íntimo. Sócrates os levava a conceber, de si mesmos, uma nova idéia, uma nova opinião sobre o assunto em questão.
E – viva dona Yvette − aí é que está. A maiêutica (do grego μαιευτικη), tomou o seu nome da deusa Maia, que zelava pelos partos. Este método tem por origem o orfismo – prática religiosa da Grécia Antiga e do mundo helênico em geral que tomou o seu nome do poeta mítico Orfeu. O que é relevante é que a maiêutica pode ter sido proveniente de um método desenvolvido por Pitágoras de Samos que consistia de despertar o conhecimento pela prática da... catarse!
Parece familiar, não é mesmo?
É bom fazer essas constatações. É um começo. Como será que se chega lá? Uma coisa é discorrer sobre esse assunto e uma outra é fazer, certo?


[1] Pneuma (πνεύμα) é a palavra grega para sopro, e tanto em filosofia como em religião se relaciona com psique (ψυχή "espírito" ou "alma"), como na expressão "sopro de vida". Mais do que um conceito, exprime o entendimento da origem dos seres.


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