Por que meditação?
“ A função do cérebro e do sistema nervoso é nos proteger de uma sobrecarga e de sermos confundidos por essa massa de conhecimento em grande parte inútil e irrelevante, impedindo a entrada da maior parte daquilo que de outro modo perceberíamos ou lembraríamos a todo momento, e deixando que apenas uma parcela pequena e selecionada permaneça na medida em que possa ter utilidade prática.”
"A mente é uma ferramenta inventada pelo universo para olhar para si mesma; não consegue, porém, se ver completamente, pela mesma razão que não se pode ver as próprias costas (sem um espelho). Ou, como costumava dizer Alan Watts, porque em última análise a língua não consegue saborear a si mesma.”
Robert Anton Wilson, Prometheus Rising
Por que meditar?
Por que e onde surgiu a meditação? Há quem afirme que a meditação teve a sua origem no desejo do homem de conseguir respostas para todas as indagações dos porquês. Segundo este ponto de vista, desde os tempos mais remotos os homens se questionam sobre a origem e a natureza da vida sobre a Terra, o quê ou quem deu origem à vida, qual a razão da vida no mundo. Estas questões têm, e tudo indica ser verdade, assediado a espécie humana desde a sua concepção sem que lhes sejam dadas respostas satisfatórias. A elas se somam as questões relacionadas ao psiquismo, à maneira de agir e reagir no mundo, em face do conjunto de características psicológicas de um indivíduo, ou o conjunto de fenômenos psíquicos e processos mentais; muito especialmente referentes àquelas experiências vividas e que tenham sido marcantes. Este último corpo de dúvidas possivelmente é o que mais tem incitado as pessoas a buscar a meditação como forma de superar suas ansiedades e angústias, como forma de buscar conforto e esperar pela conquista de paz de espírito e felicidade.
Num esforço para satisfazer a curiosidade que atrai a atenção de todos nós como seres humanos dois foram os enfoques principais desenvolvidos pelo homem para responder a estas questões. Um dos enfoques procura aprofundar a análise do mundo que nos cerca, procurando descobrir, observar e explicar os vários acontecimentos, enfoque este que se desenvolveu constituindo o que chamamos ciência. A outra abordagem tem olhado para estas questões com os propósitos dos homens, o significado da criação do universo e a própria existência de um criador segundo uma perspectiva voltada para o interior do ser humano. Seria esta uma resposta melhor para a origem da meditação? A meditação atende a um mesmo propósito, independentemente de ter por finalidade uma prática filosófica ou religiosa, ou seja mesmo uma metodologia ou um ritual. Esta finalidade é mergulhar em profundidade nas partes ocultas de nossas mentes, conscientes e inconscientes, para encontrar respostas para as questões que se revolvem em torno do sentido da vida e significado de nossa existência.
A divulgação das práticas de meditação no mundo ocidental contemporâneo recebeu, é verdade, uma grande contribuição das técnicas milenares preservadas pelas diversas culturas tradicionais do Oriente, mas não apenas de lá. Nas tradições religiosas ou não do Oriente, como o bramanismo, o budismo e suas variações, o tantrismo e o jainismo, a meditação é vista como um estado que ultrapassa o intelecto. O mesmo principio é observado pelas artes marciais, entre outras, o Kalarippayatt (ou Vajramushti ), a mais antiga arte marcial conhecida, assim como o wushu (mais conhecido por kung fu), o i-chuan e o tai chi chuan. Nelas a mente “é posta em silêncio para dar lugar à contemplação espiritual”. Esse "calar a mente" busca induzir o estado de concentração, uma volta ao centro, uma volta para o “vazio interior”. Este “vazio interior”, a bem dizer, refere-se a uma ausência de pensamentos conversacionais ou coloquiais e é, em verdade, o próprio foco da atenção direcionado para um único objeto, no caso a própria contemplação. O “silêncio” é verdadeiramente o afastamento de todos os demais pensamentos que surjam à mente e que não estejam relacionados com o objeto da meditação.
Acalmando a mente e aprendendo a compreender a complexidade de nós mesmos, podemos começar a compreender o propósito da criação. Nada pode explicar melhor o propósito e a origem da meditação do que ser um ato de auto-descobrimento e de consciência do mundo e de si no mundo. Traz à luz não apenas o conhecimento do próprio eu como a própria natureza do mundo em que vivemos. Uma terceira opção, porém, merece atenção, sobretudo nos dias de hoje. As inquietações e sobressaltos de uma existência agitada tem atribuído uma especial importância e precedência a busca da felicidade e a conquista da paz de espírito.
De fato a meditação parece ser uma manifestação da mente humana que é universal, tendo surgido ao que parece em todo o mundo mais ou menos na mesma época. As diferenças entre as práticas adotadas quando muito se apresentam nos propósitos, metas e estilos. A meditação tântrica, por exemplo, se desenvolveu dentre tribos do sul da Índia por volta de dez ou quinze mil anos atrás. Tinha então a finalidade de exprimir o desejo de compreender a mente consciente. A partir do sétimo milênio antes da era de Cristo a meditação tântrica passou por um desenvolvimento maior promovido pelo iogue Shiva, tornando-se parte integrante do taoísmo, budismo, budismo tibetano e zen, e do sufismo.
Por que meditar? E o que afinal da contas é meditação? Por quais motivos uma pessoa é levada a meditar? Por que a meditação é importante para as pessoas? Quais benefícios podem ser obtidos com meditação? Como atingir a chamada paz de espírito? Existe uma técnica para meditar que seja mais eficaz e melhor do que as outras? Apenas pessoas espiritualizadas são capazes de meditar? A meditação requer uma aptidão física especial para enfrentar longos períodos em posições desconfortáveis? Só quem tem “cuca fresca” é que pode meditar?
A bem da verdade, meditar no sentido mais geral da palavra é uma atitude mental que resulta de uma necessidade humana. É um processo mental que implica analisar ou avaliar algo, cogitar de algo, seja uma ideia, uma imagem, um evento, uma ação em um dado momento, seja no passado, seja no futuro; é um atitude de aquietamento e reflexão, instintivo, intuitivo e intrínseco ao ser humano. Conforme já foi mencionado, manifesta-se naquele momento em que fixamos o olhar sem ver, paramos no momento presente e nos voltamos para nós mesmos para apenas, tão apenas... pensar fixamente. Neste sentido, geral, é um ato natural do ser humano.
A meditação em sua forma espontânea não foi e não é uma prática exclusiva das sociedades orientais, ou das religiões, tradições e filosofias do Oriente. E menos ainda há de ter sido uma prática exclusivamente originada na Índia. Se considerarmos a meditação como um processo intelectual de ponderação; de reflexão mística ou puramente filosófica, de cogitação seguida de ilações, com o propósito de perceber fatos e ideias; de compreender e criar, de se aperceber do mundo e no mundo; torna-se fácil concluir que a meditação há de ser considerada uma prática universal, comum a todo ser dotado de inteligência e que tenha propósitos.
Não é, porém, esta forma mais geral que nos interessa, mas sim a meditação como atitude e processo mental que tem um objeto, um foco, uma meta.
Convido a todos para uma viagem.
Vamos empreender uma viagem através do significado e importância da meditação como o exercício de nosso discernimento e inteligência para nos apercebermos do mundo e no mundo. E também de reflexão mística ou puramente filosófica, de cogitação com o propósito de perceber fatos e ideias, assim como de compreender e criar com propósitos das mais diferentes naturezas. Sobretudo, porém, na busca de uma maneira de viver e de ver a vida mediante uma visão realista. Para este propósito precisamos nos despojar de qualquer tendenciosidade, de nosso ego, de sentimentos que interfiram de algum modo em nossos juízos e critérios.
Eis aí uma grande questão! A meditação proporciona uma maneira muito especial para que as pessoas alcancem um estado de consciência mediante o qual possam se superar e ir além de si mesmas para se conhecerem melhor e melhor se situarem em face de um mundo em constante mutação.
Podemos ter metas, devemos nos empenhar para atingi-las, sim, e se as alcançarmos podemos nos sentir satisfeitos? Felizes...? E se não realizamos nossos intentos devemos nos sentir frustrados, amargurados, ressentidos? Infelizes...? Afinal, o que nos proporciona realmente alegria, felicidade? É realista almejar cada vez mais posses, conquistas e fruições condicionando a felicidade à realização desses propósitos? Será que nossas pretensões são sempre legítimas mesmo que se contraponham a pretensões de outras pessoas? E as pretensões de outras pessoas deixam de ser legítimas por se contraporem às nossas? Devemos por nossos intentos além e acima dos propósitos alheios e extrair prazer, alegrias e felicidade a preço de frustração e tristeza alheias?
Nas sociedades modernas somos condicionados desde o nascimento a nos confortar em um mundo material em que nos engajamos para vivenciar e extrair prazer de tudo de que possamos nos apropriar a cada momento. Somos condicionados a obter com maior ou menor empenho coisas ou riqueza, e com isso podemos nos confortar com um belo automóvel, uma casa confortável, a viagem dos nossos sonhos, frequentarmos os melhores restaurantes, os melhores hotéis, e assim por diante. E assim iremos nos tornar pessoas felizes – tendo o que quisermos, fazendo o que quisermos e com isso nos sentindo felizes. Nesta ordem. No fundo, no fundo, porém, sabemos que as coisas não funcionam bem assim. E se cada um de nós refletir mais atentamente pode concluir que o mundo funciona no sentido inverso; que a verdadeira felicidade pode ser que resida em simplesmente ser, e que o que quer que façamos ou tenhamos é em verdade suficiente.
Durante a meditação cogitamos e refletimos sobre estas e inúmeras outras ideias. Temos de deixar de lado toda e qualquer atividade externa e interna que possa interferir e crie obstáculos a um contato com o nosso verdadeiro eu. Mas estaremos cogitando sobre essas ideias de maneira correta se aceitarmos como parte de nossos juízos as nossas frustrações, nossas aflições, nossas ansiedades, nossas ambições, nossos receios, nossos ressentimentos? E por que temos estes sentimentos negativos, por que sentimos raiva de algo ou alguém que se interpôs entre nossos intentos e a sua realização?
Estaremos comprometendo nosso entendimento se deixarmos nossos sentimentos se interporem e influenciarem o nosso melhor juízo? Estaremos julgando fatos e ideias em face de nós mesmos e realizando nossos intentos sem contradição com as nossas próprias convicções, aquelas nossas convicções e princípios éticos mais fundamentais do nosso verdadeiro eu?
Nossa atenção pode ser orientada para lidar com inquietações e propósitos de naturezas diversas se deslocando rapidamente de um para outro pensamento, de modo incessante e errático, sem um encadeamento ou sequência lógica. Nossa mente parece incontrolável e funciona deste modo desde o momento em que acordamos até conciliarmos o sono ao fim do dia.
Meditation offers many benefits. It can help us “re-charge” our batteries. It can help us answer questions we have about ourselves; or address issues or problems that we are facing. It can help us tap into and experience a higher state of consciousness and awareness. Basically, there are many benefits and no “down-sides” to meditation.
Para Swami Muktananda, da tradição Vedanta e fundador da Siddha Yoga Dham, a meditação é o estado em que podemos desfazer as ilusões egoicas às quais nos apegamos, como por exemplo, as noções de “sou homem” ou “sou cristão”. Por sua vez, o afastamento destas sobreposições permite ao indivíduo a contemplação direta do seu ser interior ou de Deus. Segundo o autor não meditamos “apenas para nos relaxarmos um pouco e experimentarmos um pouco de paz. Meditamos para expandir nosso Ser interior”.
Na tradição budista, a prática da meditação é uma condição essencial ao caminho da iluminação, tendo assim, um objetivo superior ao simples estado de relaxamento e calma. De acordo com Lama Yeshe & Zopa Rinponche 1 (1993) o propósito da meditação é encontrar o caminho para a Iluminação, pois à medida que somos responsáveis pelos nossos sofrimentos, também o somos por nossa cura. Segundo Sogyal Rinponche (1999) “(...) a meditação é o caminho para trazer-nos de volta a nós mesmos, onde podemos realmente experimentar e provar nosso ser completo, além de todos os padrões habituais”. Ela representa um momento de autocuidado, em que interrompemos nossas atividades e modos como normalmente agimos para dedicarmos um tempo ao cultivo interior. E no silêncio, construímos uma ponte, permitimos a passagem e a comunicação com nossos conteúdos internos.
A meditação é uma prática registrada pela história humana em tempos tão remotos quanto a antiguidade, quer sob a forma de escritos como também sob a forma de ícones e artefatos. Pinturas rupestres e artefatos que apresentam personagens em posturas típicas, elaborados com propósitos possivelmente mágicos, foram encontrados em sítios arqueológicos no subcontinente indiano datando de milhares de anos antes de Cristo.
É uma prática que se firmou e desenvolveu com as religiões, embora sua difusão mais significativa tenha se dado a partir do século V a.C. com a tradição original do budismo.
No Ocidente a meditação vem se tornando uma prática mais e mais difundida entre pessoas de todas as idades, credos, níveis culturais e estratos sociais. Essa afirmação pode ser corroborada mediante uma consulta multilíngue que se faça através do canal de informação cada vez mais utilizado pelas pessoas: a internet. Se percorrermos sites de busca como Google, Yahoo!Search, Bing, AltaVista e tantos outros, iremos encontrar algo como muitas dezenas de milhões de ocorrências da palavra meditação. Por estes canais encontram-se inumeráveis sites e blogs como fontes de informação, muitos dos quais, embora nem todos, bem fundamentados em estudos e pesquisas sérios. [1]
[1] Especialmente em blogs encontram-se testemunhos e estudos baseados em experiências vividas pelos narradores. Muitos dos relatos são feitos em tom intimista ou em tom extático, o que é de grande importância para a compreensão da intensidade de certas experiências. Os estudos apresentados em blogs por sua vez têm o mérito de em grande parte se basearem em experimentos conduzidos por pesquisadores graduados e pós-graduados. Quando é este o caso é grande o número de pesquisadores que se converte a algum tipo de prática meditativa de cunho espiritual ou mesmo religiosa.
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