É curioso como as pessoas aflitas não param para meditar sobre alguns dos mais sérios motivos de aflição.
O primeiro a que quero me referir é o da aceitação, a que podemos acrescentar o reconhecimento. Uma amiga recente, de doce lembrança, ainda outro dia se referia a essa aflição. Ela, como a maioria de nós, se queixou de buscar a duras penas ser aceita. E não é isso que acontece com todos nós de maneira, às vezes menos sutis, mas quase sempre de modo muito sutil?
Vejamos nosso comportamento corriqueiro como exemplo, aliás, eloquente de como buscamos aceitação. Se nos enfeitamos, se corrigimos nossas imperfeições com recurso a artifícios – seja desde uma tintura de cabelo a uma cirurgia plástica, ou com uma mentira desde sobre nossa formação acadêmica, nossas posses materiais, nossas habilidades intelectuais ou desportivas – não estaremos abrindo mão do que realmente somos para sermos o que queremos que as pessoas acreditem sermos?
Aqui entre nós, se temos problemas de aceitação entre amigos, parentes, colegas de trabalho, vizinhos e tantos outros, o que acontece não será o grande problema de nos aceitarmos a nós mesmos? Por que nos escondemos atrás dessas máscaras de que nos utilizamos para apresentar faces diferentes: cara feia para intimidar, só sorrisos para parecermos simpáticos, e assim por diante?
Mas nem tudo está perdido. O fato de nos dirigir a crianças em tom ligeiramente infantil, ou de modo ameno e educado ao falarmos com gente idosa, ou de maneira raivosa em situações de conflito, nada disso é a mesma coisa. Se nos expressamos em língua estrangeira para falarmos a estrangeiros, isso, isso não é máscara. Isso é o esforço de comunicação. Mas isso já é outro assunto.
De qualquer modo, o fato é que a existência do "eu-individual" resulta e só é reafirmada mediante um contato com o outro, que em uma visão expandida se torna o Outro - a própria sociedade como aquele ente que é diferente do indivíduo, que é diverso. Ou, se quiser, como é referido por Jacques Lacan, o grande Outro.
Dessa forma o eu apenas existe a partir do outro, da visão do outro, o que me permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo, sensibilizado que estou pela experiência do contato.
Nada a ver com o eu ideal ou o eu especular, do espelho. Porque isso também é outro assunto.
Cada um de nós
se sente impelido a sentir-se reconhecido, acolhido e aceito por outrem. Este
esforço se manifesta de uma maneira ou de outra. Quer dizer, podemos exercitar
este esforço de reconhecimento e aceitação quer de uma forma sedutora –
suavizando por palavras e gestos, até mesmo por fisionomias e posturas
corporais – ou de forma agressiva – mediante palavras impactantes, gestos, tom
de voz e atitudes corporais que buscam intimidar o interlocutor ou
interlocutores. Em um ou outro intento a busca de significação para causar o
efeito pretendido se manifesta de modo quase sempre sistemático por meio de
reiteração pela repetição, em que um e outro dos interlocutores ao fazer suas alocuções
reitera significados por meio de sintaxes e palavras variadas – também nestas
circunstâncias por palavras tanto quanto por gestos e posturas. Em vista das
alocuções que se repetem no intento de significar, parece, pois, que em um
processo de comunicação entre indivíduos, a busca de significação sem percebe
sempre incompleta no esforço de comunicação entre dois ou mais sujeitos.
O
significante dito não é o mesmo significante escutado
Primeiramente
deve se considerar que um mesmo objeto de significação já em si tem
significados distintos para um e outro indivíduo. Implica dizer que um mesmo
objeto ou objetos de uma mesma natureza foram conceptualizados (ou
conceitualizados) de forma singular para um e outro indivíduo em virtude de,
entre outros fatores, as circunstâncias, estados psíquicos e condições físicas
de um e outro indivíduo serem – e sempre serão – distintos para cada qual deles.
Em
segundo lugar, no próprio momento em que há comunicação entre dois indivíduos
cada qual estará disposto a se exprimir e a compreender as respectivas falas de
modos e em condições distintas por conta das singularidades que lhes são
próprias.
O
que equivale a dizer que, embora a palavra enunciada e a escutada sejam a
mesma, o significante dito não é o mesmo significante escutado. Podemos chegar
a esta conclusão por ser cada indivíduo o resultado de suas próprias
estruturações, resultantes que são, cada qual, dos efeitos de cada histórico de
significantes que os marcou e marcará.
Cabe
aqui uma primeira consideração: significação é o processo mediante o qual um indivíduo busca explicitar sua
comunicação – aquilo que tenta comunicar –, enquanto significante é a manifestação expressada mais geralmente,
mas não exclusivamente, através da escrita ou fala quando transmite suas
palavras. Ou seja, significação é um processo, enquanto significante é o
instrumento deste esforço de significação mediante palavras, enquanto a fala ou
escrita (assim como a música, a pintura, a dança, a escultura, etc.) é mero
veículo de significação (ou de comunicação).
Fator
importante na comunicação são os complementos às palavras em si. Nas alocuções
gestos, posturas corporais, entonações, volume sonoro das prolações, são alguns
desses complementos e podem causar efeitos sobre significantes que modificam em
seus significados não apenas as palavras, mas os próprios significantes. Nas escritas
são complementos com efeitos peculiares a própria natureza dos vocábulos quanto
a propriedades sonoras (aliterações, cacofonias, guturalidades, sibilações,
etc.), concretude (configuração formal pela tipografia, pontuação), eruditismos
ou perorações, jargonofasias propositais (formas de expressão em que a sintaxe
parece normal, mas o seu conteúdo não faz sentido), paranomásia (trocadilhos),
e assim por diante. Tanto para emissor quanto para receptor, ou seja, cada um
dos interlocutores – em situação de diálogo – ou correspondentes – em situação
de escrita/leitura epistolar, jornalística, etc. – o sentido (enquanto efeito
das palavras) será necessariamente diferente por decorrência de suas
respectivas singularidades.
Assim,
o que provoca recursividade, ou seja, um processo iterativo em que os
indivíduos buscam a significação de seus pensamentos, é o recurso ao emprego em
série de blocos de significantes (significantes combinados) que expressem esses
pensamentos. O processo de comunicação é, pois, formado por uma cadeia de
significações, que irão se suceder, formando um encadeamento de significantes
combinados para expressar pensamentos. Observe-se que nas comunicações
indivíduos pronunciam com palavras os seus pensamentos e, quase imediatamente,
buscam explicar o significado pretendido em parte ou no todo com outras
palavras.
Wo Es war, soll Ich werden
Uma segunda
observação é pertinente: no momento de uma alocução as palavras prolatadas
causam efeitos distintos no emissor e no receptor uma vez que ao prolatar tanto
o emissor quanto o receptor sofrem imediatamente e de modo único os efeitos dos
significantes correspondentes, o dito e o escutado. Por esta razão, no momento
seguinte emissor e receptor já estarão afetados pela alocução feita tanto
quanto como é feita anteriormente e se constituirão como sujeitos ou mesmo irão
constituir personas diferentes.
Quando
Freud empregou a expressão Wo Es war,
soll Ich werden teve um propósito (não muito claro) no contexto em que foi
proferida. De fato, não são poucos os argumentos que se atêm à frase em si e
descuidam deste contexto. Ela é precedida por uma consideração feita por
Freud na 31ª Conferência, que versou
sobre os efeitos terapêuticos da psicanálise, qual seja, de que os esforços
desenvolvidos visam a reforçar de modo a se aperceber de novos elementos do isso, quer dizer, do inconsciente [1]
, passando pelo eu do sujeito, para
torná-lo mais independente do supereu,
de ampliar sua percepção e promover sua organização psíquica. E em seguida à
frase enigmática, sentencia que trata-se de uma tarefa de grande proporção [2], como drenar o mar interior da
Holanda, o Zuiderzee.
De
qualquer modo, as discussões em torno do seu significado são inúmeras e até
onde sei nenhuma parece prevalecer sobre as demais. Não pretendo entrar na
discussão, mas, sim, usá-la de modo meio abusivo. A ideia que me move é de que
o significante dito não é o mesmo que é escutado.
Senão,
vejamos.
Observe-se
que a recursividade, a que fiz menção acima, produz efeitos diferentes a cada
manifestação escrita ou falada.
Observe-se ainda que a cada impulso recursivo surge um conjunto de
significantes que visa à suspensão do efeito causado anteriormente com o
conjunto de significantes antecedente. Na escrita este impulso recursivo
corresponde à rasura ou apagamento, à ressalva ou reparo, ao adendo ou
suplemento, que visa a “completar” um raciocínio e, em verdade, rasura, apaga,
torna sem efeito o dito anterior. Seja como ou com que propósito for, o impulso
recursivo procura eliminar o efeito do antecedente e promove novo efeito.
Equivale a dizer que a comunicação tem o mesmo intento de significação, embora
se dê mediante substituição de efeitos que irão se acumulando uns sobre os
outros – porque na verdade os efeitos produzidos pelos antecedentes permanecem
ainda que tenham sido “rasurados” ou “apagados”; são marcas indeléveis
inscritas no inconsciente de cada qual.
Acrescentemos,
ainda, que antes de proferir uma frase com seus significantes somos uma pessoa
que será “afetada”, um, pelo efeito da frase para si, dois, pelo efeito
observado no outro, três, pelo efeito do efeito causado.
Ou seja, tudo se
move, tudo se transforma, o sujeito falante e o sujeito ouvinte são não apenas
diferentes entre si antes, como também se diferenciam de seus respectivos
anteriores imediatamente após.
Querer parecer: Semblant ou dissimulação na formação da Persona
Cabe ainda
aduzir uma outra observação. Persona tem
acepções diversas, mas origem provável
no latim moderno ou novo latim, datado do Renascimento – circa 1375. Seu significado então era de caracterização de uma personalidade pública ou social, por
associação com as máscaras empregadas por atores na personificação de seus personagens teatrais. Na verdade estas
mesmas significações são encontradas tanto no etrusco (phersu) quanto no grego (prósōpa),
ambas como máscara ou como caracterização de uma personalidade pública, que
atendessem a um propósito.
O uso do termo persona[3]
vulgarizou-se nos dias de hoje como o “papel” que cada um de nós assume, ou talvez
desempenhe, ao interagir com outras pessoas estejam elas ou não em situação de
correspondência. Em outras palavras, trata-se de um papel que desempenhamos “para
o mundo” e “no mundo” no sentido mais
amplo dessas duas locuções. Mais ainda, independentemente de estarmos agindo
diretamente com outras pessoas, falando-lhes, postando-nos à espera de um
elevador, caminhando pelas ruas, sorrindo, etc., etc., assumimos posturas e
atitudes, ao falar, ao caminhar, ao parar, ao sentar no transporte público ou
no banco da praça, estamos procurando parecer,
causar uma impressão de. É como queremos que nos aceitem em
circunstâncias determinadas. Ora, queremos parecer alegres, ou taciturnos, ora
queremos parecer afáveis, conciliadores, ora queremos parecer enérgicos, ameaçadores.
E assim queremos parecer um tipo ou outro
de pessoa em certos momentos e em outros... também.
Somos, pois, plurais... de uma
maneira muito singular para cada
situação, com um ou outro propósito.
[1] Ihre
Absicht ist ja, das Ich zu stärken, es vom Über-Ich unabhängiger zu machen,
sein Wahrnehmungsfeld zu erweitern und seine Organisation auszubauen, so dass
es sich neue Stücke des Es aneignen kann.
[2] Es
ist Kulturarbeit wie etwa die Trockenlegung der Zuydersee.
[3] A persona (plural personae or
personas), in the word's everyday usage, is the role that one assumes or
displays in public or society; one's public image or personality, as
distinguished from the inner self. Therefore, the way you behave, talk, etc.,
with other people that causes them to see you as a particular kind of person :
the image or personality that a person presents to other people. [New Latin, from Latin] : an individual's social facade or front that
especially in the analytic psychology of C. G. Jung reflects the role in life
the individual is playing. The word is derived from Latin, where it originally
referred to a theatrical mask.[1] The Latin word probably derived from the
Etruscan word "phersu", with the same meaning, and that from the
Greek πρόσωπον
(prosōpon). Its meaning in the latter Roman period changed to indicate a
"character" of a theatrical performance or court of law, when it
became apparent that different individuals could assume the same role, and
legal attributes such as rights, powers, and duties followed the role. The same
individuals as actors could play different roles, each with its own legal
attributes, sometimes even in the same court appearance. The persona is also
the mask or appearance one presents to the world.[15] It may appear in dreams
under various guises (see Carl Jung and his psychology, andPersona (psychology)).
1175-1225; Middle English persone < Latin
persōna role (in life, a play, or a tale) ( Late Latin: member of the Trinity),
orig. actor's mask < Etruscan phersu (< Greek prósōpa face, mask) + -na a
suffix In Philosophy. a self-conscious or rational being. In Sociology. an
individual human being, especially with reference to his or her social
relationships and behavioral patterns as conditioned by the culture.
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