Diálogo Filosófico
−
As coisas não são o que são, mas
também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.
−
Então, que são as coisas? -
inquiriu o estudante.
−
As coisas simplesmente não.
−
Sem verbo?
−
Claro que sem verbo. O verbo não
é coisa.
−
E que quer dizer coisas não?
−
Quer dizer o não das coisas, se
você for suficientemente atilado para percebê-lo.
−
Então as coisas não têm um sim?
−
O sim das coisas é o não. E o não
é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.
O professor tirou do bolso uma
não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno,
porque o chocolate era não.
Carlos
Drummond de Andrade
O que é Filosofia?
O ser humano é o único animal condenado, ao que parece, a
pensar e a sofrer pelo pensamento. Pensar, refletir, é o fruto proibido que
chegou às mãos do humano a partir do momento em que se re-conhece de modo
interminável. E o conhecimento leva-nos a todos a amar o saber e admitir que
nada se sabe. Um amor eterno de perseguir o intangível, inalcançável saber. Indiscutível
o fato de a filosofia ser a própria manifestação da perplexidade do ser humano
em face do real, do mundo.
É frequente nos perguntarmos o “o quê” e “o porquê” das
coisas. Todo indivíduo é tomado de algumas ou muitas dúvidas quanto à sua vida,
à sua própria existência, sua razão de viver, assim como em relação ao sentido
das coisas em geral, fora de si e de uma realidade que se constitui à sua
volta. Quem nunca teve dúvidas quanto à razão das coisas em geral e dúvidas
quanto a certas coisas em particular? Quem nunca teve dúvidas relacionadas com
as coisas em geral, aquelas que se referem a porque as coisas são assim ou
assado, dessa maneira e não de outra? E aquelas que estão relacionadas à gente,
a nós mesmos? Por que somos assim ou assado e por que nos comportamos dessa
maneira e não de outra? Às vezes esse tipo de questionamento se dirige para a
própria fé religiosa. A dúvida nestes casos pode ser oculta, ou não. Diante de reveses
que nos vêm ao longo da vida somos assaltados por dúvidas quanto à existência
de Deus, ou de quaisquer divindades, ou
mesmo quanto à real natureza dos desígnios deste ser supremo ou dos seres que
regem nossa existência. Claro que essa crença lembra um pouco aquele gracejo que
pode se ouvir de uma vendedora em uma loja qualquer e contido na frase “tem,
mas está em falta”.
Acho, como achólogo
que sou, que o ensino de filosofia deveria ter começo pela resposta a esse
primeiro conjunto de questões. Afinal,
filosofia será que só serve ao impulso gozoso dos filósofos? É pura fruição do
intelecto?
Talvez estas perguntas devam ser antecedidas de uma outra:
qual o fim, o propósito, o objeto da filosofia? Para que serve a filosofia?
Para preencher esta primeira lacuna de compreensão faço
opção por convencionar que a etimologia da palavra filosofia esclarece melhor
que “filosofia (do grego Φιλοσοφία, literalmente «amor ao saber») é o estudo de problemas fundamentais
relacionados ao conhecimento – algo que se busca a partir de um questionamento
da razão de o homem ser, estar e existir no mundo . É claro que a partir daí
uma sucessão infindável de entendimentos e questionamentos dá origem a perguntas e
respostas, muitos argumentos e inferências, surgem em séries intermináveis e em
ciclos que se repetem a cada vez com feição diversa. A cadeia de
questionamentos e respostas remonta à antiguidade mais remota, e não é difícil
acreditar que uma tal questão tenha mesmo ocorrido a algum dos primeiros
humanoides, ainda que a seu modo muito rude e primitivo, por simples ideia, uma
cogitação mesmo sem a materialidade da fala ou da palavra, sob a forma de algo
como o quê..? ou de por quê...? E acho que estas duas perguntas resumem o
significado de filosofia simplesmente como método de busca do que é e do por que é.
E, como diria, dona Yvette, minha mãe (ela, outra vez), aí é
que está! O que é uma coisa diz respeito
à sua essência, sua natureza – um artefato, um apetrecho, um ato, um processo.
O porquê de uma coisa diz respeito à sua razão de existir, para o que serve
essa coisa. Certo?
Esta busca do significado da existência de algo, ou alguém,
pressupõe ser e estabelece que o indivíduo está no mundo por algum motivo e que
a ele, o motivo, deve servir de um modo ou de outro. Ou não! Mas vamos partir
daí.
É verdade que tudo isso é meio vago. É isso mesmo. Essa
vaguidão é a origem, e seu preenchimento se constitui na fonte do esforço de
compreensão do ser lato sensu. Deu
origem a toda a teoria do conhecimento – ou gnoseologia, ou epistemologia, ou qualquer
outra denominação pomposa que se lhe dê – e ao estudo das “causas primárias e
dos princípios elementares” do conhecimento e do ser, aquilo que se chamou
metafísica, e simplesmente significa para além da física, ou do físico, para
além daquilo que tem materialidade.
De um modo geral esta questão começa a ser abordada de modo
pouco apetente, que mal provoque ou estimule algum interesse. Quase sempre
entra no desvio da busca da verdade, ou melhor, da Verdade. E aí envereda por um universo complicado de abstrações e
de “logismos”, palavras ou expressões que não são neologismos por não serem
propriamente novas, mas são construções próprias de um grupo profissional ou
sócio-cultural – neste caso, os filósofos. Ou seja, o universo do jargão que se
constitui num discurso ou fala hermética, de compreensão difícil, e que não
raro resulta numa linguagem considerada por alguns estropiada, com inúmeros
elementos de origens diversas, não raro formada por “estrangeirismos”, dentre
os quais alguns mais exóticos de origem oriental!
A bem dizer, até certo ponto o uso de jargão acaba por se
tornar necessário para benefício da síntese e da parcimônia de palavreado. Mas
o fato é que esse tal palavreado sucinto e especializado torna o acesso bastante inacessível para quem não participa do grupo erudito.
Deixemos, porém, essas divagações de lado.
Há duas ramificações ou vertentes principais para onde
podemos dirigir nossas preocupações – que não são de modo algum opostas ou
conflitantes, mas que devem ser tratadas como são, isto é, âmbitos distintos.
Embora possam muito contribuir uma para outra. Se buscamos o conhecimento em
nós ou fora de nós o universo de cogitações que corresponde a estes propósitos
há de ser muito, muito distinto, mas no final de cada um de seus percursos irão
felizmente se encontrar.
O conhecimento e compreensão daquilo que está fora de nós,
no sentido de explicar a essência das coisas, a condição em que estamos diante
do mundo, da realidade, e a própria razão de nossa existência, faz em geral com
que nossas cogitações se baseiem em convicções obtidas ou conquistadas com o
uso da razão, ou mesmo crenças, místicas ou não, religiosas ou não, mas crenças
que têm por fundamento a fé. E se, pela fé, estivermos convencidos de existir
algo ou um ser que se impõe sobre todas as coisas, esse convencimento irá requerer
que nossas cogitações se baseiem na fé religiosa ou difusamente mística dessa
existência. Aqui existem variações de todo tipo. Desde a convicção de algo ou
um ser único, à convicção de algo imaterial e difuso que congrega forças ou, se
quiser, fontes de energia que dirigem
o universo, o todo e a todos. Entre um extremo e outro estão as crenças de que
há mais de um ou mesmo inumeráveis seres ou forças que determinam o curso do
universo e tudo nele contido.
Significa que nossas vidas são determinadas por este ou
aquele ser, ou por estes ou aqueles seres. Significa que mesmo a nossas opções
são determinadas e nossos desígnios são externos – e mesmo transcendem−, à
nossa determinação, porque até mesmo nossas escolhas são determinadas por estes
seres e forças. É esta a razão dos cultos devocionais e das oferendas como
rituais de obtenção de favores, a razão primária das preces e dos sacrifícios.
Isso nos colocará sob a condição de instrumentos, e não de atores de nossas
vidas. E consequentemente nos retira a responsabilidade absoluta sobre nossas
ações.
Neste caso a filosofia se voltará para o significado do ser
supremo, das forças superiores aos desígnios humanos e à própria natureza. Este
é o caminho da espiritualidade, em seu significado de conjunto total das
faculdades intelectuais, quer como um princípio ou essência da vida incorpórea
– como religião e tradição espiritualista da filosofia −, quer como um
princípio material − como um conjunto de
leis da física e da biologia que dão origem e moldam nosso organismo. Fora do
contexto religioso, "o espírito" é a "substância" dos seres
humanos, a parte de nós mesmos que nos torna iguais, irmãos. Fatores como a
raça ou o contexto de vida são as eventualidades, os "acidentes" que
nos diferenciam. Neste sentido o termo espírito tem sido usado como sinônimo do
conceito grego de pneuma[1]
por Hegel, Ken Wilber e Friedrich Schelling, isto é, pura e simplesmente o sopro
da vida, o sopro vital.
Há então um, digamos, outro
eixo de nossas preocupações situado entre o mundo com as coisas que nele se
encontram e as criaturas humanas, nós. Não um nós impessoal, mas o conjunto dos
“eus”, cada um dos indivíduos em si.
Na opção de atingir o conhecimento e compreensão deste ser, estar
e existir em nosso universo íntimo, em
nosso universo interior, estaremos
diante de outra modalidade da filosofia que mais do que cogitada é aplicada e,
por outro lado, também de grande e inegável valia para os indivíduos no trato
das questões de ordem pessoal, nas questões que dizem respeito à nossa atitude
diante da vida, à maneira como cotidianamente nos situamos diante do mundo. Ou,
se assim quiser, como agimos e como reagimos à realidade. Há todo um contexto erudito que aborda a
questão da filosofia aplicada que eventualmente se situa no campo dos
“logismos” a que me referi anteriormente.
A filosofia aplicada, claro, vem se estendendo às ideias evocadas
pelos indivíduos a partir de suas vivências e que dizem respeito ao âmbito
restrito dos indivíduos, ao seu universo íntimo. É uma vertente do pensamento
filosófico especialmente orientada para as atitudes do ser humano, para a
reflexão sobre o sentido de viver e como viver no mundo, para o julgamento do
caráter e a natureza das pessoas de quem nos acercamos e nos afastamos, a quem
dedicamos bons e maus sentimentos, a quem admiramos e desprezamos, de quem nos
ressentimos e a quem amamos. Sob este aspecto a filosofia se aproxima dos
processos mentais que compõem o nosso universo psíquico. E se confundem com ele
na medida em que não apenas se confundem com estes sentimentos como também
determinam nossas emoções, a maneira como nos manifestamos por causa deles.
O conhecimento do eu é uma forma de percepção da sua própria
natureza. É, porém, um estágio do conhecimento que se situa para além da mera
percepção da natureza do eu em si. É imperioso referir-se a. Balizar a própria
natureza do ser em si em relação a. Ao que está fora, ao que é exterior e até
mesmo aquilo que é estranho. Ao que é exógeno e excêntrico em relação ao eu em
si.
De volta a Sócrates
Jacques Lacan propunha o retorno a Freud, de quem se fez
paladino e a quem dedicou grande parte de sua vida. Lacan, por outro lado, cunhou a frase
“Socrate [est le] précurseur de l’analyse”.
Há quem faça ressalvas a esta habilitação com um jogo de palavras, por
sinal, esporte predileto do próprio Lacan. Dizem alguns que Sócrates foi
precursor antecipando a psicanálise sem tê-la praticado. Faço eu, pois,
ressalvas à ressalva. Parece-me que o simples fato de Sócrates remeter ao
aforismo “Conhece-te a ti mesmo”, colocava-se a si mesmo já em campo para fazer
o seu esporte predileto: a ironia (no sentido etimológico ) de refutar
incessantemente seu interlocutor na busca do significado verdadeiro das coisas
e, sim, revelar o verdadeiro ser por trás das aparências, para introduzir a reflexão
no mundo de opiniões.
Sócrates não pregava nem fazia apologias diretamente, sequer
teorizava. Limitava-se a praticar sobretudo a crítica das opiniões que lhe
levavam questionando-as. E se inclinava sobre o conhecimento do em si, o campo da conduta humana, sobre
aquilo que as aparências mostram, e nelas buscar o sentido daquilo que estava
oculto, por trás do revelado, e introduzia a reflexão no mundo das opiniões. Pelo
que se pode depreender dos relatos de Xenofonte e, claro, Platão, o objeto de
Sócrates era a busca da verdade como fundamento das ideias.
Há pelo menos uma evidência de que Sócrates enveredava pelo
âmbito do pessoal ao questionar Alcebíades sobre sua habilitação para a
política e a gestão da coisa pública. Contestou sua habilidade para se
aperceber da justiça. Fico, portanto, com a solução de Lacan.
O que é Psicanálise?
A psicanálise, por sua vez, é um campo da ciência humana com
uma natureza especulativa cujo foco principal, mas não único, é o indivíduo, o ser
humano como tal ou, por outras palavras, busca discernir causas e efeitos do
comportamento do homem tanto quanto promover o ajustamento do homem sobretudo a
si mesmo.
É o caso de nos perguntarmos, primeiramente, se Sócrates
deixou de praticar algo parecido, muito parecido. Acho que não, até por
inevitável porque pode-se atribuir a Sócrates ser um chato implacável, mas não
desonesto.
Em segundo lugar, cabe a pergunta de que em que medida a
psicanálise se confunde com a filosofia naqueles aspectos e propósitos da tal
busca da verdade, ao menos no âmbito da intimidade, do íntimo do indivíduo.
Voto decididamente com Lacan quanto à precursão de Sócrates,
sem restrições.
Não é este, pois, meu foco, mas, sim, a medida em que
filosofia e psicanálise se aproximam ou até mesmo se confundem, de um lado,
pelo âmbito de seus questionamentos respectivos e, de outro, pela própria
prática, a práxis. Claro, estou me referindo àquilo que se refere ao indivíduo
por suas escolhas, suas atitudes, na sua relação com o mundo, com a realidade.
Claro também, naquilo que diz respeito à busca da felicidade. Claro ainda mais,
na prática que parece sugerir Sócrates.
Repete-se aqui um mesmo quadro de nossas preocupações. Se, para
contrariar Fernando Pessoa, se a nossa atenção estiver voltada para as coisas
do mundo, as coisas em geral, caberia perguntar, por exemplo, por que a lua e o
sol, a nossa lua e o nosso sol existem, por que os seres humanos têm essa ou
aquela natureza, por que a água do mar é salgada e a dos lagos é doce, por que
faz frio ou calor, por que há desertos e por que há pântanos, e assim por
diante. Se olharmos para as filosofias
em geral, da Hélade ou da Ásia, constamos que os questionamentos começaram por
aí... E, admitamos, não há de ter sido só com aqueles ou com esses.
Claro que também podemos perguntar por que existem
crueldade, desigualdade, agressividade, hostilidade, miséria, guerra, fome, e
tantas outras coisas ruins, assim como podem existir coisas boas como
solidariedade, caridade, compaixão, beleza, ternura, amor, alegria. Enfim, por
que existem contrastes, divergências, incoerências no mundo e entre as pessoas?
E desta forma, o primeiro passo para a filosofia é a inquietação que conduz ao
questionamento. O objeto da filosofia é a reflexão, o uso do pensamento que
permite que nos distanciemos dos fatos aparentemente comuns para buscarmos seus
fundamentos. Se tomarmos o caminho do Buda Gótama, a partir da proposição
contida nos quatro fundamentos do pensamento búdico, a constatação é de que sem
esse distanciamento, que se traduz por equanimidade, não há como chegar
seriamente a lugar algum.
É natural, pois, indagar, por exemplo, porque o ser supremo
criou o mundo e a nós imperfeitos se poderia em sua suprema sabedoria criar o
todo perfeito? Implicância? Pirraça? Ou para testar a nossa capacidade de bem
decidir por este ou aquele carma? Como
será também propositado indagar que, diante da repulsa à corrupção, qual o
papel do indivíduo, inclusive nós mesmos, a ser buscado para fazer frente a “esse
estado de coisas”? Será que o exercício
da cidadania não abrange a defesa de seus direitos também como obrigação
cívica, como contribuição à defesa das leis constituídas? Se nos mostramos
indignados diante do desrespeito às leis por quem quer que seja por que adotamos
uma atitude de tolerância, de pouco caso ou até mesmo nos poupamos das
inconveniências de proteger nossos direitos por menor que seja?
Lembra que há pouco eu me referi ao fato de a filosofia se
aproximar dos processos mentais que compõem o nosso universo psíquico e se
confundem com ele na medida em que não apenas se confundem com estes
sentimentos como também determinam nossas emoções, a maneira como nos
manifestamos por causa deles? Mas como e
por que surgem esses sentimentos que tanto embaraço causam e nos levam a
reações emocionais tão, tão despropositadas ou dolorosas?
Voltando a nossa atenção para o eu, por que deixamos de
fazer alguma coisa da maneira certa para fazermos da maneira que sabemos ser
errada? Por que reagimos de maneira impulsiva quando sabemos que melhor fazemos
se adotamos uma atitude mais refletida? Por que deixamos nossas obrigações para
a última hora ou o último dia e nos poupamos do atabalhoamento de resolvê-las
na última instância e não em um momento qualquer anterior? Por que nos deixamos
levar por tentações consumistas e nos encrencamos com dívidas no cartão de
crédito? Por que comemos demais e não apenas o suficiente para nos alimentar?
Por que somos capazes de abarrotar nosso armário com roupas se o que temos já
mais do que nos basta?
A questão central de nossas atitudes equivocadas é o uso da
irracionalidade no lugar da racionalidade. E não para aí, mas sim nas
motivações de nossos impulsos. Como diz Hobbes, somente o homem tem o
"privilégio do absurdo", e o que ele está querendo dizer é que
somente a criatura racional pode ser irracional. Irracionalidade é um processo
ou estado mental − um processo ou estado racional − que falhou e falha. Como
isso é possível? O paradoxo da
irracionalidade surge a partir daquilo que está envolvido em nossas maneiras
mais básicas de descrever, entender e explicar estados e eventos psicológicos.
A filosofia está presente nas ciências, nas artes, nos mitos,
nas religiões, no cotidiano. Embora possamos afirmar que a filosofia esteja
presente nas diversas manifestações do humano, ela não se confunde com nenhuma
dessas formas de conhecimentos específicos, mas as fundamenta, senão mesmo as
orienta. Dá assim origem a uma modalidade de filosofia aplicada, sim, a campos
específicos do conhecimento e a criatividade humana sob a forma de preceitos e
códigos de ética em todas as vertentes do conhecimento humano, desde as
ciências ditas humanísticas às ciências exatas − estas hoje mais do que nunca
carentes de norte para aquilo que afeta o ser humano. Desse modo surgiram ao
longo do tempo segmentos desse saber como a bioética, a ética ambiental – que
deu origem, por exemplo, às ideias do desenvolvimento sustentado. Essa busca de
fundamentos faz da história da filosofia, como já foi dito, “uma história sem
fim, porque diz respeito a todos em todas as épocas”. Por isso, é sempre
oportuno reavivar a lembrança das diversas escolas do pensamento filosófico,
não por simplesmente admitir que tudo já foi pensado, mas sim porque nunca é
cedo ou tarde demais para filosofar, é fato. Mas também porque os tempos
passados eram outros, um outro contexto, um outro ambiente com usos e costumes
diversos, determinando normas de convívio diversas, desde um quadro de relações
entre pessoas e nações, a um contexto tecnológico e normativo que não se
repetem ao longo da história humana. Simplesmente porque houve e há, assim como
haverá, algo de novo a se considerar. Há duzentos anos atrás, por exemplo, não
se considerariam os efeitos da industrialização, da automação, da robótica e da
internet nas relações do trabalho e entre as pessoas.
No que toca à filosofia aplicada quero me ocupar do que
poderíamos chamar de filosofia existencial, ou melhor ainda, de filosofias
existenciais porque existem tantas filosofias existenciais quanto há seres
humanos, com suas peculiaridades, suas histórias, fantasias cultivadas e
expectativas frustradas, suas amarguras, suas lembranças. E seus
ressentimentos. Sim, os ressentimentos são uma parcela significativa do que
constitui cada uma das filosofias existenciais, aquelas que se centram no
homem, como ser individual e singular. Sim, porque este é o âmbito da psicanálise
como o é da filosofia. E é neste âmbito que tramita uma das vertentes de filosofia
aplicada e muito especialmente no que se dedica a assistir os aflitos. É
justamente onde se encontram filosofia e psicanálise ou, nas palavras de Lacan,
a antifilosofia e a psicanálise.
Cabe aqui um parêntese.
A idéia de utilizar pensamentos ou teorias filosóficas para solucionar
problemas, conflitos ou crises existenciais dos indivíduos assumiu ares de
novidade, a partir de Gerd Achenbach, na Alemanha, em 1981. Ganhou denominações
que lhe conferem a ideia de que é distinta da filosofia ancestral, ora sendo
denominada filosofia prática, ora filosofia clínica, mas também é denominada
aconselhamento filosófico, quando a rigor quando muito deveria, no meu modesto
entender, denominar-se práxis filosófica e estabelecer similaridade com a
prática ancestral sem lhe atribuir a pretensão de inovar. Curiosamente essa
idéia encontrou ressonância na França, com Marc Sautet; nos EUA, com Lou
Marinoff; no Brasil, com Lúcio Packter, e em vários outros países. Esses
autores entendem que praticar a filosofia significa refletir sobre os problemas
cotidianos das pessoas. A prática pode
ser conduzida sob a forma de reflexões em grupo, ou entre um “conselheiro
filosófico” ou “filósofo praticante” e um paciente. No Brasil, Lúcio Packter
denomina de "filósofo clínico".
O que surpreende é atribuir a natureza de novidade a essa
prática, e mais ainda as manifestações de censura e repúdio da parte de
terapeutas, sob a alegação de que os profissionais que a praticam não estão
habilitados para diagnosticar “causas orgânicas de distúrbios”.
Claro que há críticas a essa modalidade, algumas até mesmo
ferozes, assim como esta última com natureza corporativista. Procuram outros lhe
retirar legitimidade por razões, não de eficácia, mas até mesmo de ordem
ideológica. A questão beira a postura
inquisitorial.
Cabe aqui uma digressão. Não há dúvida alguma que a
filosofia ancestral voltou-se para as questões mais elevadas que inquietaram e
ainda hoje inquietam os homens. Há provas, porém, que não desconsiderou as
inquietações do homem como indivíduo assediado pela aflição. O monumental
elenco de citações que falam de amor, amizade, família, paternidade, aborto,
suicídio, morte, inveja, honra, fraternidade, solidariedade, e tantas outras,
responde pela evidência deste tipo de preocupação com a natureza e o
comportamento do ser humano. A literatura ficcional, a cinematografia, a
pintura e a escultura, a poesia (!), a música, enfim, as artes até mais do que
as ciências nos dão mostras eloquentes desse fato. Afinal, “a obra de arte só tem valor se for fiel a seu tempo”
porque como disse Picasso, Não há arte do passado nem do futuro. A arte que não
é do presente jamais será arte. Não se pode, tão simplesmente, também retirar
do campo da filosofia as grandes contribuições do pensamento indiano, árabe,
chinês ou japonês simplesmente por serem
orientais. Assim como também não se
desprezará a importância do pensamento do guru Nanak, do Buda Gótama ou Confúcio
(Kung-Fu Thze). Sempre presentes estão preocupações com a aflição, o
sofrimento, a ambição, a cobiça, a luxúria.
Não há dúvida também que haverá sempre críticas por qualquer
das opções que qualquer um de nós faça em relação ao que quer que seja,
simplesmente porque a razão que me guia não há de ser jamais a mesma razão que
guia o meu vizinho, o meu pai, o meu colega de trabalho, o meu chefe, e assim por
diante. Tal como na parábola do burro,
do velho e da criança, ora o velho conduzir o burro desmontado era uma tolice,
ora o burro montado pela criança era uma crueldade com o velho, ora o burro
montado pelo velho era uma crueldade com a criança, ora o burro montado pela
criança e pelo velho era uma crueldade com o burro. Não há como conciliar
sempre com todos os pontos de vista e menos ainda com todas as culturas.
Estas mesmas críticas em alguns casos consideram que o
pensamento que se volta para o indivíduo é impróprio por não levar em conta a
imperiosa necessidade de o homem ser um agente de modificação da sociedade, das
relações econômicas, da política e assim por diante. E o que fazer do aforismo gnōthi seauton , conhece-te a ti mesmo, nosce
te ipsum? Seriam um convite à alienação? Seriam Brias de Priene, Quilon de Esparta,
Heráclito, Pítaco de Mitilene, Pitágoras de Samos, Sólon de Atenas,Tales de
Mileto, Sêneca, Ovídio, sem falar no próprio Sócrates, todos agentes da
alienação? Há, convenhamos, um certo exagero, assim como grande desapreço pelas
contribuições de pensadores à reflexão sobre a natureza humana, seus
desassossegos, suas inclinações, suas criações. Sim, porque existem a filosofia
do direito, a filosofia da história, a filosofia da matemática, a filosofia da
economia, e assim por diante. Todas constituem o que se denomina filosofia
aplicada.
E, afinal, como haverá de se sair um ser humano nesse
intento de modificar, a partir de que concepções do bem e do bom, como ajuizar
o outro, se em si não detém o melhor
juízo da maneira como seus sentimentos são interferentes?
Basta de digressão.
Pessoalmente discordo da denominação de filosofia aplicada.
Simplesmente porque não estou convencido de existir filosofia que não vise de
um modo ou de outro o convencimento e a sua aplicação, a aplicação de seus
princípios... Acredito tão apenas nesta divisão a que me referi, a filosofia
que tem por objeto o mundo, a realidade, as coisas, e a filosofia que se volta
para os indivíduos, mas sem ismos.
Pessoalmente também creio que tomarmos o juízo alheio como ponto de partida não
cabe.
Fico com Sócrates e tenho a firma convicção que a resposta
virá mediante a procura da verdade própria, do seu próprio eu, no interior do
homem, pela maiêutica, pelo parto das ideias. Sócrates conduzia este parto em
dois momentos: no primeiro estágio, Sócrates suscitava a dúvida em seus
discípulos de modo sistemático mediante o processo de ironia, questionamentos
contrapostos sucessivamente sobre cada argumento, ideia, conceito apresentado
por seu interlocutor. Em seguida, interrogava esta pessoa para fazê-la
expressar conhecimentos adormecidos.
Portanto, buscava despertar noções escondidas no seu íntimo. Sócrates os levava
a conceber, de si mesmos, uma nova idéia, uma nova opinião sobre o assunto em
questão.
E – viva dona Yvette − aí é que está. A maiêutica (do grego
μαιευτικη), tomou o seu nome da deusa Maia, que zelava pelos partos. Este
método tem por origem o orfismo – prática religiosa da Grécia Antiga e do mundo
helênico em geral que tomou o seu nome do poeta mítico Orfeu. O que é relevante
é que a maiêutica pode ter sido proveniente de um método desenvolvido por
Pitágoras de Samos que consistia de despertar o conhecimento pela prática da...
catarse!
Parece familiar, não é mesmo?
É bom fazer essas constatações. É
um começo. Como será que se chega lá? Uma coisa é discorrer sobre esse assunto e
uma outra é fazer, certo?
[1] Pneuma (πνεύμα) é a palavra grega para
sopro, e tanto em filosofia como em religião se relaciona com psique (ψυχή
"espírito" ou "alma"), como na expressão "sopro de
vida". Mais do que um conceito, exprime o entendimento da origem dos
seres.