domingo, 4 de dezembro de 2011

O sentido da psicanálise e da filosofia para a meditação


Playing by the rules makes everyone else happy. Not playing by the rules makes me happy.
[Não faço a menor ideia de onde tirei isso...]
Não é feliz aquele que assim pensa.
É feliz o sábio que com moderação e firmeza está tranquilo e em harmonia consigo mesmo, não se consumindo com os males, futilidades e entusiasmos, nem se enervando por medo, nem ardendo de desejos e de cobiça.
Cícero
A busca da razão ou das razões de si próprio, o auto-conhecimento, é um caminho ora feito de muitas etapas, ora um caminho com muitas bifurcações.
Por uma dessas trilhas pode-se buscar suas razões e mesmo construir todo um corpo de teorias e hipóteses tal como Freud, Jung, Adler, Kleine, Lacan. É um campo especulativo que traz muitas contribuições para as pessoas em geral. Resta saber se este é um fim em si mesmo ou se é um fim que contribui para quem envereda por aí. É claro que esta opção sempre trará benefícios para quem a põe em prática, mas a maior parte das contribuições irá se dirigir para o impessoal, isto é, para “as pessoas” e não para si mesmo, por uma questão de foco.
Outra opção é a busca voltar-se para o praticante da busca, a própria pessoa à busca de explicações para sua maneira de ser. E, normalmente, esta busca tem lá as suas limitações em virtude dos filtros que nossos sentimentos nos impingem. É, sem dúvida, uma empreitada que encontra obstáculos consideráveis, na medida em que se antepõem à busca, a própria razão dela. Em outras palavras, o foco da busca é “desfocado” pelos sentimentos revividos, ou melhor, ressentidos. Os ressentimentos são como “anti-corpos” para a apercepção – percepção, compreensão e ilação – serena e isenta das próprias motivações. Surge, portanto, uma opção secundária, uma bifurcação: recorrer ou não à ajuda externa, de um psi – seja lá qual for a sua (dele) orientação, desde que seja um agente equânime – o que, por sua vez, também não é nada fácil.
Mais ainda, ao buscar explicações sobre a sua maneira de ser, um indivíduo poderá ter as suas atenções voltadas para uma busca de simples compreensão e apaziguamento de si para “sentir-se melhor”. É o caso da “busca da felicidade”, da “busca da paz interior”. Ou, alternativamente, o indivíduo irá buscar “a compreensão da sua razão de ser no mundo” e “o porquê das coisas do mundo”. Esta opção permite que o sujeito se situe diante do mundo e busque a apreensão da realidade para compreendê-la.
A meditação pelo primeiro sentido mencionado é meio-irmã das psicoterapias. As psicoterapias por sua vez são antônimas do ignorar, desconsiderar – e mais claramente ainda do “deixa pra lá”, “esquece isso”, “não esquenta com isso”, “nem queira saber disso”.
Há uma razão para as psicoterapias serem tão atraentes e ao mesmo tempo tão insuportáveis, execráveis (e até mesmo revoltantes). Elas se colocam em posição diametralmente oposta, isto é, “não deixe pra lá”, “queira saber”. E dentre as psicoterapias existe a psicanálise – ainda que os psicanalistas rejeitem essa proximidade – que é uma terapia da psique, sim, mas que guarda consideráveis e decisivas diferenças em relação às demais, inclusive com a psiquiatria e as neurociências. Sim, porque as demais psicoterapias são intervencionistas e invasivas como a psicanálise não é. Daí porque, entendo eu, a psicanálise está mais próxima e quase contígua às práticas meditativas.
Como assim?
A prática psicanalítica não apenas insiste e persiste e teima em não ignorar, não desconsiderar, não desconhecer. Ela vai além e lembra e obriga a meditar sobre as incongruências, irracionalidades, os motivos do sofrimento que vêm às nossas mentes, que promovem o sofrimento psíquico. Mais importante ainda, a psicanálise, por não ser intervencionista e invasiva, construiu toda a sua teoria sobre a máxima de limitar-se a induzir, abrir caminhos, a servir de guia. Mais do que limitar-se, o psicanalista deve intervir, quando absolutamente necessário, sem mínima sequer tentativa de interpretar, compreender, porque não cabe a ele, não tem conhecimento de situações e circunstâncias antecedentes e consequentes de um fato que causa este ou aquele sofrimento. A teoria psicanalítica tal qual as práticas orientais da meditação – em especial o budismo – preconiza que o sofrimento existe e é inevitável, porém, embora o psicanalista saiba disso, não menciona esta inevitabilidade. A contiguidade é muito evidente, mas não são a mesma coisa.
Uma coisa é certa, porém. A meditação requer e provoca, por sua vez, o apaziguamento e a busca da serenidade sem que sejam ignoradas as sequelas e dores do viver. Para dizer a verdade a preparação para a meditação requer estabelecer de início que a vida foi, está e será marcada por sofrimentos, maiores e menos significativos, mas ao mesmo tempo inevitáveis e por isso exigem perseverança na superação, para que apaziguar a mente e para que se ganhe a serenidade com o propósito de isentar o juízo das mágoas e tribulações diárias.
A psicanálise e a filosofia – ou, se preferir, o psicanalisar-se e o filosofar sobre as coisas da vida e do mundo  – têm claramente o condão de servir à reflexão. Sujeitos que se voltam para o meditar estão, em verdade, transitando de modo bem peculiar na busca de explicações que, de um lado, identificam a origem ou causa de seus atos e, do outro, buscam explicações sobre a natureza ou essência das coisas do mundo. No primeiro caso, no processo psicanalítico, a busca está voltada para o próprio eu, enquanto no caso da filosofia a busca se dá pelo viés do eu, visto que cada eu tem seu modo perculiar de olhar o mundo.
O budismo conta com uma prática que se volta para o amor compassivo, da compaixão e perdão incondicionais. É chamada metta. Designa o impulso mental da compaixão, que visa ao perdão, à tolerância, ao amor compassivo que pressupõe incondicionalidade, sem ressalvas, e que começa com o impulso para se perdoar. A partir do perdão pelas suas próprias imperfeições um indivíduo irá voltar-se para as outras pessoas, num processo de compreensão gradual segundo a intensidade do relacionamento que se tem com as outras pessoas. Assim, em um segundo estágio o perdão irá se estender àqueles mais próximos – pais, irmãs e irmãos, esposas e esposos, assim com parentes e aparentados próximos. Em seguida, amigas e amigos, parentes não tão próximos, mas que por este ou aquele motivo contam com a nossa afeição – e, portanto, mais percebidos como merecedores de nosso perdão. Em outro estágio o perdão é conferido a um círculo de relações ainda imediato como o dos vizinhos e companheiros de trabalho, escola, igreja, clube esportivo, pelada, enfim, não propriamente amigos e amigas, mas ainda assim pessoas de que gostamos ou podemos gostar. E essa graduação vai se voltando para pessoas com quem temos relações cada vez mais distantes, até, no limite, voltar-se para aquelas pessoas de quem não gostamos, inclusive aquelas de quem nos ressentimos e devotamos até mesmo inimizade.
A prática em si se desenvolve por meio de uma sucessão de votos de perdão. Bem entendido, voto como desejo sincero, ou vontade intensa, como ato volitivo, de intenção – parte do que se denomina carma.
Neste ponto, permito-me apontar e analisar alguns aspectos que resultam dessa proposição, ou mesmo prescrição.
O primeiro desses aspectos é a natureza de um voto - como ato volitivo - de intenção , como desejo sincero, como compromisso ou promessa solene, de natureza íntima, seja religiosa ou não, seja afetiva ou não. Sob esse aspecto, a intenção ou compromisso sincero, consequente, não será um ato volitivo pura e simplesmente. Depende de uma firme convicção. Desenvolver uma tal convicção não há de ser apenas uma volição sem fundamento. Claro, pode-se perdoar e dedicar compaixão a alguém - mas... sem compreender a real natureza do perdão e da compaixão? Sem ter a compreensão dos aspectos a serem objetivamente considerados em relação a um ser seu semelhante? Afinal de contas, perdoar quem,  o quê e por quê?
Ao identificar o sujeito e objeto do perdão, estaremos identificando alguém e as razões do perdão e da compaixão, certo? Pois bem.
Ao avaliarmos a natureza de uma pessoa veremos imediatamente as características pessoais dessa pessoa que são determinantes, circunstâncias e fatos dessa relação interpessoal, entre ela e eu. Os efeitos positivos e negativos devem ser considerados. Por que? Ora, porque sem ter consciência desses efeitos não há como qualificar a natureza de uma relação interpessoal – e menos ainda a natureza e o propósito desse perdão, compaixão, amor incondicional. E não há como objetivar, isto é, não há como definir a ação de perdoar e ter compaixão de modo transitivo, de modo que se transmite do eu agente para o objeto a pessoa. Ou seja, perdoar quem, o quê e por quê.
Em segundo lugar, e não menos importante, temos de tornar presente na lembrança fatos e circunstâncias que motivam sentimentos e emoções... negativos dessa pessoa em mim – pois afinal de contas não queremos perdoar? O que nos levará inevitavelmente a evocar ressentimentos, raivas, desprezo, e outros que tais. Por que? Bem, para objetivar nosso propósito de perdão e compaixão há de ser pelo que é ruim, e não pelo que é bom, certo?
E é este o estágio em que voltamos a nossa atenção para o outro e nos perguntamos qual a verdadeira razão dos nossos ressentimentos e raivas e desprezo e temores. É este o estágio em que devemos nos perguntar se, ao menos em parte, a verdadeira razão não estará no fato de sermos afetados por termos feito ou sermos capazes de cometer os mesmos atos com as mesmas naturezas que nos causam ressentimentos e raivas e desprezo. É o primeiro movimento mental que nos leva à humildade de reconhecer em nós defeitos, defeitos com que não estamos habituados a avaliar, simplesmente porque vemos e evocamos mais facilmente os ressentimentos e as raivas e o desprezo e a repulsa que nos são causados, e muito raramente nos nossos atos que possam causar e causam esses mesmos sentimentos nos outros. Neste ponto, sim, somos capazes de perdoar e devotar compaixão, realmente, a um outro.
Objetivar o nosso perdão e a nossa compaixão é impulso eminentemente subjetivo, que compulsa nossos sentimentos a partir dos sentimentos alheios – de que podemos apenas e tão apenas supor –, nossas emoções e reações a partir das emoções e reações que somos capazes de infligir aos outros.
Neste estágio, também, damos início a um processo de auto-conhecimento.
Não há de ser difícil perceber em nós mesmos que decisões impensadas, via de regra levam a ações mal-conduzidas. Ou para ser mais explícito, ora vão na direção errada e cometemos desatinos, ora nos levam a hesitar e não avançar, e daí a decisão não resulta em ação.
Corre por aí um certo refrão de que ao olharmos para nós e para o mundo estamos à cata da verdade, ora a nossa verdade, ora a verdade de que o mundo se reveste. Às vezes denominamos essa verdade de realidade. Ou – ah, Lacan... -  de real por “oposição” ao simbólico e o imaginário, e não como de fato serão anelados entre si.
Tenho uma antiga e penosa dúvida em relação a descobertas feitas por mim. Resumidamente: e daí?O que fazer com isso ou aquilo que descobri... – em mim mesmo, a meu respeito? Quando era muito jovem peguei-me a ler sobre auto- análise. Mais ou menos na mesma época muito li sobre filosofia – estava aí com os meus vinte anos ou até menos, acho. Na ocasião não me dei conta, mas de um certo modo estava buscando resposta por um e outro caminho. É claro que tudo que me chegava tinha como resultado um certo êxtase respeitoso de estar descobrindo a “verdade”, ora do mundo, ora sobre mim mesmo – pelo menos eu acreditava nisso. Com o tempo – e põe tempo nisso – acabei por desenvolver essa disposição de me perguntar: ‘tá certo, mas o que qu’eu faço com isso? Como tirar proveito dessas “descobertas”? É possível empreender esse tipo de viagem sozinho, por conta própria? Há quem afirme que sim. E há quem afirme que não. Vale, porém, a tentativa ainda que o resultado seja menor.
A ajuda de um psicanalista promove a qualquer momento a introspecção do analisando – e do analista também? – ou as sessões são o ensejo para o analista interpretar as falas que venham do sujeito, do analisando, ao acaso? Estas falas do analisando, que têm origem nas suas cogitações – no momento que for – são a única fonte para analista e analisando se debruçarem sobre um paciente e (tentar) atingir o conhecimento do self (de ambos?)? É certo que as interpretações permitem conhecer as origens das aflições – independentemente de sua importância para decifrar os enigmas em que cada um de nós se enreda? E se assim é para que servem as interpretações: são meras constatações que explicam comportamentos? E o que fazer com estas constatações, reorientamos nossas maneiras de agir, assim, sem mais nem menos, sem quaisquer julgamentos? E se “ajuizamos” nossa natureza, vamos julgá-la segundo quais referências, as nossas próprias ou as da sociedade, de nossa família, de nossos amigos, nossos colegas de trabalho? Eis aí a questão da aceitação: queremos ser aceitos pelo que somos ou por aquilo que esperam de nós? Ou do que, cada qual, esperamos de nós mesmos?
Você se conhece? Sabe porque se comporta de uma ou outra maneira como faz? Sabe o que deseja mudar na sua vida? Sabe como mudar? O famoso aforismo inscrito no templo apolíneo de Delfos – “conhece-te a ti mesmo” – invocado por Sócrates (sem esquecer que foi Sócrates que também afirmou que “só sei que nada sei”...), traduz uma das mais antigas preocupações do homem, isto é, as causas de suas dúvidas sobre o propósito de estar no mundo, das vicissitudes e do vive(ncia)r seus sofrimentos, de confrontar-se com suas próprias opções e defrontar-se com a natureza e o comportamento das outras pessoas. Pensadores, cientistas e pessoas comuns vêm há muito se debatendo com o tema da natureza humana e as suas próprias naturezas, suas escolhas, suas repulsas, seus anseios e suas apreensões e, mais do que tudo, o porquê e o para quê de suas escolhas e ações.
Pessoas que guardam em si impulsos agressivos podem se considerar “resolvidas” a partir dessa constatação? Digamos que essas pessoas passem a ter controle sobre seus impulsos, mas apenas porque têm controle sobre os pensamentos que sugerem agressão. Terão realmente resolvido esse impulso?
As pessoas acreditam que pelo fato de ter acesso privativo aos seus próprios pensamentos e sentimentos, também possuiriam um conhecimento profundo dos porquês do seu comportamento. Contudo, esse tipo de conclusão tem recebido pouco suporte das análises realizadas em laboratórios experimentais, em clínicas de pesquisadores, psicanalistas e psicólogos, assim como nas nossas próprias observações cotidianas.
Segundo Skinner (alguém sabia que o nome dele era Burrhus Frederic...?!), uma pessoa pode saber que “está fazendo alguma coisa”, “que tende a fazer alguma coisa”, “que fez alguma coisa” ou “o porquê de ter feito alguma coisa”. Perceber o seu próprio comportamento pode ser muito útil ao tentar mudar esse mesmo comportamento. Quantas pessoas não entendem porque não conseguem: parar de beber ou usar outro tipo de droga, parar de brigar com o cônjuge, estabelecer um relacionamento aprofundado com seus filhos, pais e amigos ou ter um emprego bem estável ou ser bem sucedido nos negócios?
Uma pessoa que conhece a respeito de si mesma é, em grande medida, fruto da interação com as demais pessoas? Descobrimos que somos bonitos ou feios, simpáticos ou tímidos, inteligentes, brilhantes ou não, pelo que as demais pessoas dizem a respeito do nosso comportamento? É nesse reconhecimento pelo outro, é no questionar e pelo olhar do outro que começamos a nos conhecer? Realmente?  Reflita: grande parte do que você acredita ser suas qualidades e aptidões não é fruto do que durante a sua vida as pessoas reconheceram em você? E de forma semelhante, grande parte do sofrimento humano também provém daquilo que não é reconhecido pelos demais: do que ignoramos a nosso próprio respeito ou do que não queremos reconhecer?
Quando nos defrontamos com uma situação que não nos satisfaz, percebemos que é preciso mudar. Uma pessoa pode saber que seu casamento não está bem, que está infeliz no trabalho, que não sabe lidar com o comportamento dos filhos, que tem ataques de pânico, ansiedade ou outros medos. Muitas vezes a situação de sofrimento é clara, mas o que mudar, como mudar e em que sentido mudar, não o é?
Afinal, por que precisamos nos conhecer para mudar? Será que mudar em qualquer direção será eficiente? Será que na maioria das vezes vai trazer resultados positivos em termos de qualidade de vida? Um indivíduo pode perceber que seu casamento não está trazendo mais satisfação e pode tentar mudar essa situação de inúmeras maneiras: arranjando um(a) amante, se afastando do cônjuge, bebendo, se separando, brigando, permanecendo deprimido ou efetivamente buscando o que não o satisfaz – mas em que medida seria possível mudar? Logo, se conhecer é um dos primeiros passos para uma mudança bem sucedida. Uma vez que nem sempre descobrir essas motivações e em que sentido mudar é fácil, a ajuda de um psicólogo ou psicanalista pode se tornar fundamental, especialmente porque a psicologia e a psicanálise tem desenvolvido técnicas para aumentar o autoconhecimento e, após a identificação adequada do problema, de produção de mudanças efetivas.
Para que vivemos? Qual é o motivo da nossa vida? Qual é o objetivo da nossa existência? Por acaso a vida consiste unicamente em nascer, crescer, reproduzir-se e morrer – às vezes, passar pela vida “em brancas nuvens” e se deixar morrer (“Só passou pela vida, não viveu”)?
É claro que, mais do que necessário, não há como viver em harmonia, ou perto disso, senão dentro de um estado psicológico adequado de bem-estar ou de busca deste estado, com uma profunda reflexão no que toca ao que se pensa, se sente e se faz, para podermos conhecer-nos a nós mesmos e elevarmos de forma positiva o nosso nível humano e espiritual – lato sensu (!), se me permitem –, nos voltar para uma reconstrução da nossa condição interna, a partir de nossa "desconstrução". A solução natural para os nossos traumas, complexos, aversões, fobias e todas as classes de transtornos psicológicos estará nas razões que nos provocam tantos danos, tantos sofrimentos, tantas ansiedades, angústias? Trata-se de uma busca persistente, não raro dolorosa, que vai à raiz dos nossos problemas sem se fixar na simples e única dependência de uma ou outras pessoas, ou de fármacos, antidepressivos, ansiolíticos, etc..
Eis afinal o propósito da meditação.
Necessitamos nos conhecer a nós mesmos para encontrarmos o sentido da nossa vida. A consciência é intangível, invisível, atemporal, indefinível? Ou será que a consciência pode se expressar como um conjunto de valores, de princípios, tais como o amor, a nobreza, sinceridade, compreensão, espiritualidade, humildade, fraternidade... Todos estes valores estão residualmente e potencialmente dentro de nós e à espera de serem totalmente desenvolvidos, de acordo com o nosso trabalho de crescimento interior. Cabe uma pergunta: serão estes valores e princípios universais? Acredito que sim. Mas seremos capazes de, a partir de nossas deficiências e imperfeições, formar um juízo sobre nós mesmos? E sobre o outro ou os outros?
Gostaria de discorrer sobre a relação entre decidir e fazer.  E desse modo tentar elucidar para mim e quem mais seja em que medida a união da meditação com a filosofar e a psicanalisar – ou qualquer forma de tratamento dos assuntos do espírito – pode fazer dessas três práticas uma poderosa arma para viver e conviver, e em muitos casos, vencer passo a passo as adversidades que a vida nos impõe. Nada mágico, nada necessariamente místico... Apenas, digamos assim, na medida em que nos harmonizamos primeiramente com nós mesmos, e em seguida com os outros, estaremos predispostos a nos harmonizar no mundo e com o mundo.
E isso quer dizer... O quê? Que essa harmonização implica sair de um estado de desarmonia, ora! Implica não se submeter a estados mentais conflitivos, aflitivos e, por conseguinte, “estressantes”. Atinge-se a equanimidade, constância e igualdade de ânimo, de temperamento, em qualquer circunstância, serenidade e tranquilidade de espírito.
Por que? Porque em um tal estado de espírito, pensamos de maneira desapaixonada, ajuizamos - e podemos decidir e decidimos - sem estar dominados por sentimentos e emoções acentuadas, seja de modo “negativo”, seja de modo “positivo”... Não se trata de nos alienar de nossos sentimentos e reagirmos sem qualquer emoção, mas reagir de maneira serena – a despeito deles! Com calma. Com aquela calma que pretendemos ao respirar fundo e "contar até dez"... E que geralmente a gente não faz e que em geral também não dá tão certo assim.
Tal calma está ao nosso alcance. Num tal estado da mente acalmada o mundo e as pessoas são o que sempre foram e serão, mas nós passamos a aceitá-los como são. E não como insistimos que sejam por uma interpretação ou juízo que fazemos a partir de nossas ansiedades, ressentimentos e frustrações, indignação e raivas, mágoas, etc..
Acalmar-nos é o primeiro passo. A calma depende de um ritmo e uma pulsação internos desacelerados, digamos assim. Um fator de agitação é, por um lado, a sucessão de pensamentos que perpassam nossa mente, com a lembrança de nossos ressentimentos e nossas ansiedades, nossas frustrações e nossas expectativas, sofreguidão, avidez, decepção, resignação, inconformismo, revolta, arrependimento, indignação. Para darmos este primeiro passo precisamos, pois, controlar a nossa atenção sobre algo, por exemplo, as nossas sensações. Ou sobre imagens. Ou sons. E mesmo palavras recitadas ou entoadas em cânticos.
Não se trata de criar uma vacuidade em nossas mentes, mas apenas preenchê-las com uma e única coisa. Isso nos leva - comprovadamente - a um estado de calma e irá permitir-nos por o foco de nossa mente sobre essa coisa. Ou seja, estaremos nos concentrando, literalmente nos colocando no centro de nós mesmos. A partir desse estágio podemos voltar nossa atenção para o mundo e para as pessoas que nele estão. Podemos calmamente julgar a realidade. Como ela é e não como queremos ou apenas gostaríamos que fosse. Podemos julgar as pessoas calmamente. Como elas são independentemente de nossas expectativas de como deveriam ser, independentemente de nosso entendimento de “o que seria melhor para elas”, ou de como poderiam ser melhores para nós, segundo o nosso juízo do que é melhor para nós, e não para elas. Não iremos julgar o mundo e as pessoas a partir de uma realidade que queremos impor. Isto porque a partir de uma consciência de nós mesmos não iremos nos considerar melhores porque somos tão imperfeitos quanto o mundo e as pessoas, uma auto-consciência que só se adquire com o conhecimento de nós mesmos. Tal conhecimento, adquirido com serenidade, irá nos permitir julgar a nós mesmos também com isenção, com equilíbrio e até mesmo com uma certa condescendência, alguma tolerância com nossas próprias imperfeições.
Como iremos nos conhecer? A partir da isenção de ânimo adquirida com o estado de serenidade podemos nos voltar para nossas imperfeições, nossas reações e emoções descontroladas, nossos impulsos hostis e as razões que nos levam a esses e essas bem como aqueles e aquelas. Trata-se de justificar a nós mesmos, entender sem inicialmente avaliar, atribuir juízos de valor baseados em valores morais, normas sociais, padrões de comportamento julgados adequados. Pois é a partir daí que podemos entender os outros e tornarmo-nos tolerantes, compreensivos, compassivos. Não se trata, porém, de isentar a si mesmo e aos outros de culpas. Erros devem, sim, ser punidos, porque há de existir um custo para quem sofre as consequências dos malfeitos. E quem os pratica deve pagar o preço que lhes for cobrado. É, pois, desse procedimento de julgar os outros que podemos formular um juízo a respeito de nós mesmos. Basta perguntar-se a si mesmo se o que recriminamos num outro alguém não tem o seu equivalente em nosso próprio comportamento, não é?
E assim, a cada pergunta feita a si mesmo, a partir do juízo sobre uma outra e qualquer pessoa, chega-se a algumas conclusões sobre a imperfeição alheia que reverbera ou se identifica com as nossas próprias imperfeições. Somente assim podemos, primeiramente, nos compreender melhor e nos perdoar a nós mesmos. Para então perdoar o outro.
Como julgar a nós mesmos e os outros? Precisamos nos voltar para conceitos como certo e errado, apropriado e in apropriado. O certo hoje é o mesmo certo de ontem e o que será certo amanhã? E quanto ao errado é a mesma coisa? Há uma dinâmica que a própria história humana e a cultura espelham a partir dos usos e costumes ao longo dos tempos, conforme o quadrante e o ambiente desta e daquela sociedade. Sem esta dinâmica a história e a cultura não se movimentam, sem as particularidades de culturas em diferentes lugares, em diferentes estratos das sociedades, todos seriam iguais e muito, muito improváveis.
Um campo específico da Filosofia, o da chamada filosofia aplicada[1], por um lado, tem sido e é predominantemente o campo que se dedica às ideias que têm origem nesta ou naquela sociedade, cada qual com seus usos e costumes, com valores bem próprios de suas respectivas culturas. E que têm grandes efeitos nas ações praticadas por esta ou aquela sociedade. O estudo de filosofia aplicada resulta em aplicações práticas como a ética e a ideologia política, no campo do direito, do ambiente, da medicina, da biologia, da engenharia e da arquitetura – tanto quanto a tão pouco lembrada filosofia da economia – e nas demais áreas de ciências humanas - isto é, das disciplinas que estudam a condição humana mediante métodos e processos sobretudo analíticos, críticos e especulativos. De um modo geral são consideradas ciências humanas a filosofia, sociologia, ciência política, antropologia, história, linguística, pedagogia, infelizmente ora sim, ora não a economia, administração, contabilidade, geografia humana, direito, arqueologia, teologia, psicologia, entre outras. Todavia, o mesmo se dá, embora com menos frequência, nas ciências ditas exatas - campos de ciência capazes de expressões quantitativas, estimativas e predições precisas, tanto quanto métodos rigorosos de testar hipóteses, especialmente os experimentos quantificáveis. Matemática, física, engenharia, química, estatística, assim como partes da biologia, psicologia e economia podem ser consideradas ciências exatas nesse sentido. É fato que via de regra estes campos das ciências exatas – hélas!  - não são considerados suscetíveis de reflexão e considerações de natureza filosófica. Infelizmente...
A filosofia aplicada é, por outro lado, de grande e inegável valia para os indivíduos no trato das questões de ordem pessoal, nas questões que dizem respeito à nossa atitude diante da vida, à maneira como nos situamos diante do mundo. Ou, se assim quiser, como reagimos à realidade. A filosofia aplicada se estende às ideias que também são evocadas pelos indivíduos a partir de suas vivências e que dizem respeito ao âmbito restrito desses indivíduos, ao seu universo íntimo. É uma vertente do pensamento filosófico, especialmente orientada para as atitudes do ser humano, para a reflexão sobre o sentido de viver no mundo. Para o julgamento do caráter e a natureza das pessoas de quem nos acercamos e nos afastamos, a quem dedicamos bons e maus sentimentos, a quem admiramos e desprezamos, de quem nos ressentimos e a quem amamos.
Sob este aspecto a filosofia se aproxima dos processos mentais que compõem o nosso universo psíquico. Está presente em diversas manifestações da inteligência que é formalizada nas inúmeras linguagens adotadas pelo ser humano – a linguagem visual e gestual, tanto quanto a linguagem dos signos verbais, da fala, musical, e assim por diante. Pode ser observada em imagens, em posturas e movimentos corporais, nas literaturas em prosa e em versos, na estrutura e harmonia de uma composição musical, e assim por diante também. A interpretação dessas linguagens empregadas permite perceber e ajuizar os seus possíveis significados. Mesmo que o seu autor-usuário não tenha a exata consciência disso... Afinal, toda e qualquer forma de expressão pode ser interpretada - objetiva e subjetivamente. E, mais importante, há que se considerar que significados podem ser percebidos, independentemente de quem os enuncia, deliberadamente ou não, consciente ou inconscientemente - porque passam "ao domínio público".
De um certo modo, a observação dessa estrutura e suas manifestações pode ser feita em relação ao homem. A estrutura de um indivíduo é composta de elementos físicos, corporais e mentais, mais especificamente psicológicos constituídos no consciente e no subconsciente. As manifestações se apresentam na dinâmica contida no comportamento deste indivíduo. O que implica observar e interpretar essas manifestações pelo seu significado, a partir do consciente manifesto e do ocasional descortinar do subconsciente, numa primeira etapa. Em seguida, penetrar no inconsciente oculto e emparedado!
Vale aqui fazer mais uma referência ao budismo, já que tomamos a prática de metta como elemento que já ensejou nossas considerações. Sim, o budismo tem suas bases assentadas sobre quatro proposições e um processo constituído de oito etapas a serem vencidas com vistas à consciência absoluta, à chamada iluminação. As quatro proposições são desenvolvidas em torno do sofrimento como condição vivencial, condição mundana, para o humano. As etapas são estágios da consciência a serem atingidos para dar consequência à prática da meditação.
O método vipássana tem propósito introspectivo, de investigação do íntimo – e o inevitável transitar pelo psicanalisar e pelo filosofar...  Consiste de técnicas de aguçamento da percepção, a começar pela atenção à respiração e secundada pela atenção às sensações do corpo, inicialmente aquelas sensações periféricas e, em seguida, às sensações interiores. Posto em outros termos, inicialmente o praticante terá de manter a sua atenção sobre os movimentos da respiração que entre e sai pelas narinas, do ar que entra e sai pelas narinas; e em seguida as sensações epidérmicas sobre toda a extensão do corpo. As sensações interiores têm de ser percebidas pela atenção que focaliza sistemas e órgãos internos, - como coração e sistema venoso, pulmão e vias respiratórias, órgãos digestivos e seu respectivo sistema. Estes estágios de aguçamento da percepção são causa e resultado sucessivos de um estado de relaxamento corporal que induz um estado de calma e harmonização da mente do praticante. O aguçamento aos poucos induz um estado crescente de calma e esta calma abre caminho para um aguçamento também crescente da atenção – por isto causa e resultado crescentes da capacidade de se acalmar e da capacidade de focalizar a mente, de início, nessas percepções. Pronto. Estaremos cada vez mais próximos do estado ideal de cogitar, de pensar, de analisar, de inferir – ou se preferir, de refletir, meditar sobre uma e qualquer ideia... Desde que seja uma de cada vez.
Uma advertência: este processo é gradual. E quando menciono gradual é porque ao longo de sessões de meditação a atenção irá se acentuar, mas também ao longo dos anos é que se dará essa conquista. Não se esperem milagres com resultados imediatos. E neste caso também não se esperem resultados permanentes. Há dias bons e dias ruins... Mesmo depois de muitos anos de prática... Porque nossas vidas irão apresentar-nos vicissitudes, frustrações, expectativas, essas coisas do viver a vida. Mais ainda, a alternância de perseguição de sensações com pensamentos "invasivos" do esforço pela atenção é em si exercício para meditação! Pode não ser a meditação mais estruturada, nem a mais sistematizada, mas este é um começo. Portanto, não há porque exasperar-se, não há porque desanimar. Faz parte. É gradualmente crescente a capacidade de se concentrar e de pensar com serenidade.
Mas cada coisa a seu tempo. No momento oportuno abordarei os aspectos relacionados a esses estágios preparatórios para a reflexão – sem ignorar que há inumeráveis técnicas de adestramento da atenção. Até mesmo porque em algum momento terei de mencionar a motivação que nos leva à meditação. E não são poucas. As devocionais, por exemplo, em geral implicam o emprego de preces.
Por ora, estou mais preocupado em me ater às questões relacionadas à psicanálise e à filosofia. À psicanálise por causa da busca em torno do eu, na acepção mais elementar e simples, sem complicações: o objeto é o eu, eu mesmo. À filosofia por causa da busca da razão de ser no mundo e, se assim quiser, do próprio mundo. E como muitos são os casos, essas questões ora parecem complicadas, ora parecem simples, senão mesmo ingênuas. Mas não vamos enveredar no âmbito teórico dessa e daquela. Afinal, queremos desenvolver uma maneira de investigar a nossa natureza, nosso caráter, nosso comportamento, nossas reações, nossas motivações...
Para, entendendo-nos, perdoar! Eu, tu, ele, nós, vós, eles.
Muito mais do que provável há de ser improvável ajuizarmos ou termos já ajuizado alguém e a nós mesmos com equanimidade, naquele estado de serenidade a que me referi. Geralmente esse ou aquele juízo é fruto de momentos, disposições e circunstâncias não serenos. Quando me julgo ou julgo quem quer que seja é porque algo me levou a precisar julgar. Muitas das vezes não é por motivo bom. É mais comum eu me recriminar a mim mesmo do que me ver como um sujeito legal. O mesmo acontece com relação aos outros. Isso tem tudo a ver com o fato de nossa disposição ser mais para lembrar de fatos e circunstâncias que nos magoam.
Comecemos essa investigação .
Em termos preliminares, é necessário exercitar a autocrítica com perguntas a si mesmo quanto a comportamentos – essa é fácil – que sistematicamente recriminamos em nós mesmos. E essa lista pode ser  longa...
Cabe aqui ainda uma consideração (dentre as muitas considerações): a noção de juízo de valor. As práticas religiosas preconizam a prática do bem e até mesmo do Bem Supremo, partindo de suas próprias noções do que é certo e do que é errado, do que é normal e anormal. Primeiro é de se levar em consideração que tais noções não são aplicáveis a todas as culturas e, portanto, não são universais. Também não são aplicáveis a qualquer tempo porque as sociedades humanas trocam valores como trocam de modas de vestir, de expressar-se, de linguagem e mesmo de acepção das palavras. Palavras pronunciadas hoje corriqueiramente escandalizavam - e em muitos casos ainda escandalizam algumas pessoas - aqueles menos afeitos a vulgaridades, grosserias, incontinência de palavreado (e outras incontinências quando as pessoas fazem xixi na rua com naturalidade). E, aliás, existem culturas que convivem com naturalidade com excrecências e com quem as deixa pelas ruas...
As práticas meditativas mais em uso preconizam tanto a retidão, o que é justo e correto, como conceitualizam a normalidade e a anormalidade. Também sobre estes aspectos devem prevalecer as observações que aqui fiz sobre culturas e temporalidade. É claro que a referência cultural deve ser limitada ao âmbito da saúde e vista pelo que é a da patologia em seu sentido clínico. Perversões são patológicas, assim como toda e qualquer forma de crueldade quaisquer que sejam as culturas.

[1] Pessoalmente discordo um tanto dessa designação porque desde a origem a filosofia visa à adoção de seus princípios para benefício do ser humano. Não tem, pois, um fim em si mesmo. O que na verdade acontece é que a filosofia acadêmica se afasta muito desse propósito quando envereda pelo campo conceitual e da linguagem cifrada, preciosa e confusa. Turva a inteligência das pessoas comuns ao invés de iluminar entendimentos. Mas, enfim, o mesmo se dá em outros campos do conhecimento que me permito supor visam alguma aplicação... Jacques Lacan justifica seu distanciamento com a linguageria – o discurso psicanalítico do analisante, também considerado objeto de escuta psicanalítica, na situação psicanalítica de pesquisa e de aprendizagem; como ele é cotidianamente objeto de escuta na situação psicanalítica de tratamento e de supervisão – para afastar-se da intromissão do grande Outro. É. Pode ser, mas não sei se isso mais atrapalha do que ajuda.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Por que meditação?

Por que meditação?
 A função do cérebro e do sistema nervoso é nos proteger de uma sobrecarga e de sermos confundidos por essa massa de conhecimento em grande parte inútil e irrelevante, impedindo a entrada da maior parte daquilo que de outro modo perceberíamos ou lembraríamos a todo momento, e deixando que apenas uma parcela pequena  e selecionada permaneça na medida em que possa ter utilidade prática.                                                                                                                                                                       
"A mente é uma ferramenta inventada pelo  universo para olhar para si mesma; não consegue, porém, se ver completamente, pela mesma razão que não se pode ver as próprias costas (sem um espelho). Ou, como costumava dizer  Alan Watts, porque em última análise a língua não consegue saborear a si mesma.”
Robert Anton Wilson, Prometheus Rising

               Por que meditar?

Por que e onde surgiu a meditação? Há quem afirme que a meditação teve a sua origem no desejo do homem de conseguir respostas para todas as indagações dos porquês. Segundo este ponto de vista, desde os tempos mais remotos os homens se questionam sobre a origem e a natureza da vida sobre a Terra, o quê ou quem deu origem à vida, qual a razão da vida no mundo. Estas questões têm, e tudo indica ser verdade, assediado a espécie humana desde a sua concepção sem que lhes sejam dadas respostas satisfatórias. A elas se somam as questões relacionadas ao psiquismo, à maneira de agir e reagir no mundo, em face do conjunto de características psicológicas de um indivíduo, ou o conjunto de fenômenos psíquicos e processos mentais; muito especialmente referentes àquelas experiências vividas e que tenham sido marcantes. Este último corpo de dúvidas possivelmente é o que mais tem incitado as pessoas a buscar a meditação como forma de superar suas ansiedades e angústias, como forma de buscar conforto e esperar pela conquista de paz de espírito e felicidade. 
Num esforço para satisfazer a curiosidade que atrai a atenção de todos nós como seres humanos dois foram os enfoques principais desenvolvidos pelo homem para responder a estas questões. Um dos enfoques procura aprofundar a análise do mundo que nos cerca, procurando descobrir, observar e explicar os vários acontecimentos, enfoque este que se desenvolveu constituindo o que chamamos ciência. A outra abordagem tem olhado para estas questões com os propósitos dos homens, o significado da criação do universo e a própria existência de um criador segundo uma perspectiva voltada para o interior do ser humano. Seria esta uma resposta melhor para a origem da meditação? A meditação atende a um mesmo propósito, independentemente de ter por finalidade uma prática filosófica ou religiosa, ou seja mesmo uma metodologia ou um ritual. Esta finalidade é mergulhar em profundidade nas partes ocultas de nossas mentes, conscientes e inconscientes, para encontrar respostas para as questões que se revolvem em torno do sentido da vida e significado de nossa existência.
A divulgação das práticas de meditação no mundo ocidental contemporâneo recebeu, é verdade, uma grande contribuição das técnicas milenares preservadas pelas diversas culturas tradicionais do Oriente, mas não apenas de lá. Nas tradições religiosas ou não do Oriente, como o bramanismo, o budismo e suas variações, o tantrismo e o jainismo, a meditação é vista como um estado que ultrapassa o intelecto. O mesmo principio é observado pelas artes marciais, entre outras, o Kalarippayatt (ou Vajramushti ), a mais antiga arte marcial conhecida, assim como o wushu (mais conhecido por kung fu), o i-chuan e o tai chi chuan. Nelas a mente “é posta em silêncio para dar lugar à contemplação espiritual”. Esse "calar a mente" busca induzir o estado de concentração, uma volta ao centro, uma volta para o “vazio interior”.  Este “vazio interior”, a bem dizer, refere-se a uma ausência de pensamentos conversacionais ou coloquiais e é, em verdade, o próprio foco da atenção direcionado para um único objeto, no caso a própria contemplação. O “silêncio” é verdadeiramente o afastamento de todos os demais pensamentos que surjam à mente e que não estejam relacionados com o objeto da meditação.
Acalmando a mente e aprendendo a compreender a complexidade de nós mesmos, podemos começar a compreender o propósito da criação. Nada pode explicar melhor o propósito e a origem da meditação do que ser um ato de auto-descobrimento e de consciência do mundo e de si no mundo. Traz à luz não apenas o conhecimento do próprio eu como a própria natureza do mundo em que vivemos. Uma terceira opção, porém, merece atenção, sobretudo nos dias de hoje. As inquietações e sobressaltos de uma existência agitada tem atribuído uma especial importância e precedência a busca da felicidade e a conquista da paz de espírito.
De fato a meditação parece ser uma manifestação da mente humana que é universal, tendo surgido ao que parece em todo o mundo mais ou menos na mesma época. As diferenças entre as práticas adotadas quando muito se apresentam nos propósitos, metas e estilos. A meditação tântrica, por exemplo, se desenvolveu dentre tribos do sul da Índia por volta de dez ou quinze mil anos atrás. Tinha então a finalidade de exprimir o desejo de compreender a mente consciente. A partir do sétimo milênio antes da era de Cristo a meditação tântrica passou por um desenvolvimento maior promovido pelo iogue Shiva, tornando-se parte integrante do taoísmo, budismo, budismo tibetano e zen, e do sufismo.
Por que meditar?  E o que afinal da contas é meditação? Por quais motivos uma pessoa é levada a meditar? Por que a meditação é importante para as pessoas? Quais benefícios podem ser obtidos com meditação? Como atingir a chamada paz de espírito? Existe uma técnica para meditar que seja mais eficaz e melhor do que as outras? Apenas pessoas espiritualizadas são capazes de meditar? A meditação requer uma aptidão física especial para enfrentar longos períodos em posições desconfortáveis? Só quem tem “cuca fresca” é que pode meditar?
A bem da verdade, meditar no sentido mais geral da palavra é uma atitude mental que resulta de uma necessidade humana. É um processo mental que implica analisar ou avaliar algo, cogitar de algo, seja uma ideia, uma imagem, um evento, uma ação em um dado momento, seja no passado, seja no futuro; é um atitude de aquietamento e reflexão, instintivo, intuitivo e intrínseco ao ser humano. Conforme já foi mencionado, manifesta-se naquele momento em que fixamos o olhar sem ver, paramos no momento presente e nos voltamos para nós mesmos para apenas, tão apenas... pensar fixamente. Neste sentido, geral, é um ato natural do ser humano.
A meditação em sua forma espontânea não foi e não é uma prática exclusiva das sociedades orientais, ou das religiões, tradições e filosofias do Oriente. E menos ainda há de ter sido uma prática exclusivamente originada na Índia. Se considerarmos a meditação como um processo intelectual de ponderação; de reflexão mística ou puramente filosófica, de cogitação seguida de ilações, com o propósito de perceber fatos e ideias; de compreender e criar, de se aperceber do mundo e no mundo; torna-se fácil concluir que a meditação há de ser considerada uma prática universal, comum a todo ser dotado de inteligência e que tenha propósitos.
Não é, porém, esta forma mais geral que nos interessa, mas sim a meditação como atitude e processo mental que tem um objeto, um foco, uma meta.
Convido a todos para uma viagem.
Vamos empreender uma viagem através do significado e importância da meditação como o exercício de nosso discernimento e inteligência para nos apercebermos do mundo e no mundo. E também de reflexão mística ou puramente filosófica, de cogitação com o propósito de perceber fatos e ideias, assim como de compreender e criar com propósitos das mais diferentes naturezas. Sobretudo, porém, na busca de uma maneira de viver e de ver a vida mediante uma visão realista. Para este propósito precisamos nos despojar de qualquer tendenciosidade, de nosso ego, de sentimentos que interfiram de algum modo em nossos juízos e critérios.
Eis aí uma grande questão! A meditação proporciona uma maneira muito especial para que as pessoas alcancem um estado de consciência mediante o qual possam se superar e ir além de si mesmas para se conhecerem melhor e melhor se situarem em face de um mundo em constante mutação.
Podemos ter metas, devemos nos empenhar para atingi-las, sim, e se as alcançarmos podemos nos sentir satisfeitos? Felizes...? E se não realizamos nossos intentos devemos nos sentir frustrados, amargurados, ressentidos? Infelizes...? Afinal, o que nos proporciona realmente alegria, felicidade? É realista almejar cada vez mais posses, conquistas e fruições condicionando a felicidade à realização desses propósitos? Será que nossas pretensões são sempre legítimas mesmo que se contraponham a pretensões de outras pessoas? E as pretensões de outras pessoas deixam de ser legítimas por se contraporem às nossas? Devemos por nossos intentos além e acima dos propósitos alheios e extrair prazer, alegrias e felicidade a preço de frustração e tristeza alheias?
Nas sociedades modernas somos condicionados desde o nascimento a nos confortar em um mundo material em que nos engajamos para vivenciar e extrair prazer de tudo de que possamos nos apropriar a cada momento. Somos condicionados a obter com maior ou menor empenho coisas ou riqueza, e com isso podemos nos confortar com um belo automóvel, uma casa confortável, a viagem dos nossos sonhos, frequentarmos os melhores restaurantes, os melhores hotéis, e assim por diante. E assim iremos nos tornar pessoas felizes – tendo o que quisermos, fazendo o que quisermos e com isso nos sentindo felizes. Nesta ordem. No fundo, no fundo, porém, sabemos que as coisas não funcionam bem assim. E se cada um de nós refletir mais atentamente pode concluir que o mundo funciona no sentido inverso; que a verdadeira felicidade pode ser que resida em simplesmente ser, e que o que quer que façamos ou tenhamos é em verdade suficiente.
Durante a meditação cogitamos e refletimos sobre estas e inúmeras outras ideias. Temos de deixar de lado toda e qualquer atividade externa e interna que possa interferir e crie obstáculos a um contato com o nosso verdadeiro eu. Mas estaremos cogitando sobre essas ideias de maneira correta se aceitarmos como parte de nossos juízos as nossas frustrações, nossas aflições, nossas ansiedades, nossas ambições, nossos receios, nossos ressentimentos? E por que temos estes sentimentos negativos, por que sentimos raiva de algo ou alguém que se interpôs entre nossos intentos e a sua realização?
Estaremos comprometendo nosso entendimento se deixarmos nossos sentimentos se interporem e influenciarem o nosso melhor juízo? Estaremos julgando fatos e ideias em face de nós mesmos e realizando nossos intentos sem contradição com as nossas próprias convicções, aquelas nossas convicções e princípios éticos mais fundamentais do nosso verdadeiro eu?
Nossa atenção pode ser orientada para lidar com inquietações e propósitos de naturezas diversas se deslocando rapidamente de um para outro pensamento, de modo incessante e errático, sem um encadeamento ou sequência lógica. Nossa mente parece incontrolável e funciona deste modo desde o momento em que acordamos até conciliarmos o sono ao fim do dia.
Meditation offers many benefits. It can help us “re-charge” our batteries. It can help us answer questions we have about ourselves; or address issues or problems that we are facing. It can help us tap into and experience a higher state of consciousness and awareness. Basically, there are many benefits and no “down-sides” to meditation.
Para Swami Muktananda, da tradição Vedanta e fundador da Siddha Yoga Dham, a meditação é o estado em que podemos desfazer as ilusões egoicas às quais nos apegamos, como por exemplo, as noções de “sou homem” ou “sou cristão”. Por sua vez, o afastamento destas sobreposições permite ao indivíduo a contemplação direta do seu ser interior ou de Deus. Segundo o autor não meditamos “apenas para nos relaxarmos um pouco e experimentarmos um pouco de paz. Meditamos para expandir nosso Ser interior”.
Na tradição budista, a prática da meditação é uma condição essencial ao caminho da iluminação, tendo assim, um objetivo superior ao simples estado de relaxamento e calma. De acordo com Lama Yeshe & Zopa Rinponche 1 (1993) o propósito da meditação é encontrar o caminho para a Iluminação, pois à medida que somos responsáveis pelos nossos sofrimentos, também o somos por nossa cura. Segundo Sogyal Rinponche (1999) “(...) a meditação é o caminho para trazer-nos de volta a nós mesmos, onde podemos realmente experimentar e provar nosso ser completo, além de todos os padrões habituais”. Ela representa um momento de autocuidado, em que interrompemos nossas atividades e modos como normalmente agimos para dedicarmos um tempo ao cultivo interior. E no silêncio, construímos uma ponte, permitimos a passagem e a comunicação com nossos conteúdos internos.
A meditação é uma prática registrada pela história humana em tempos tão remotos quanto a antiguidade, quer sob a forma de escritos como também sob a forma de ícones e artefatos. Pinturas rupestres e artefatos que apresentam personagens em posturas típicas, elaborados com propósitos possivelmente mágicos, foram encontrados em sítios arqueológicos no subcontinente indiano datando de milhares de anos antes de Cristo.
É uma prática que se firmou e desenvolveu com as religiões, embora sua difusão mais significativa tenha se dado a partir do século V a.C. com a tradição original do budismo.
No Ocidente a meditação vem se tornando uma prática mais e mais difundida entre pessoas de todas as idades, credos, níveis culturais e estratos sociais. Essa afirmação pode ser corroborada mediante uma consulta multilíngue que se faça através do canal de informação cada vez mais utilizado pelas pessoas: a internet. Se percorrermos sites de busca como Google, Yahoo!Search, Bing, AltaVista e tantos outros, iremos encontrar algo como muitas dezenas de milhões de ocorrências da palavra meditação. Por estes canais encontram-se inumeráveis sites e blogs como fontes de informação, muitos dos quais, embora nem todos, bem fundamentados em estudos e pesquisas sérios. [1]



[1]          Especialmente em blogs encontram-se testemunhos e estudos baseados em experiências vividas pelos narradores. Muitos dos relatos são feitos em tom intimista ou em tom extático, o que é de grande importância para a compreensão da intensidade de certas experiências. Os estudos apresentados em blogs por sua vez têm o mérito de em grande parte se basearem em experimentos conduzidos por pesquisadores graduados e pós-graduados. Quando é este o caso é grande o número de pesquisadores que se converte a algum tipo de prática meditativa de cunho espiritual ou mesmo religiosa.

Minhas considerações preliminares para uma prática da meditação

Minhas considerações preliminares para meditação
Sabe-se que Sócrates em certas ocasiões passava muitas horas imóvel, absorto em uma meditação. Platão fêz uma descrição disso em O Banquete. Pode-se considerar que tais estados eram êxtases intelectuais (esta a opinião dos Anciãos), mas a duração excepcional desses êxtases (segundo Platão, de vinte e quatro horas) tem um caráter excessivo e sugere que Sócrates na realidade atravessava crises de catalepsia. Certos relatos revelariam assim sintomas de sonambulismo: “Entre os trabalhos e exercícios voluntários através dos quais Sócrates procurava se fortalecer contra o sofrimento, diga-se, eis uma das provas singulares que ele se impunha diversas vezes: supõe-se que com frequência ele ficava de pé na mesma posição, à noite, de dia, de um sol a outro, sem mover as pálpebras, imóvel no mesmo lugar, com o olhar voltado para um mesmo ponto, mergulhado em seus pensamentos, como se estivesse isolado de seu corpo pela meditação.”— Aulu-Gelle, Les Nuits Attiques
Há alguns anos atrás passei por uma grave crise pessoal e senti-me desesperançado, o que é alguma coisa a meio caminho entre a falta de esperança e o desespero. Aprendi com dona Yvette, minha mãe, que mesmo as piores experiências e as consequências mais graves de nossos atos nos mostram no mínimo a maneira de não fazer ou a melhor de fazer as coisas. De algum modo isso ficou incutido em mim, de modo que volta e meia me vejo fazendo ressalvas às minhas piores experiências e procurando entrever o lado positivo das adversidades. Claro que isso é fácil de falar já a uma certa distância de fatos que nos magoam. Nem sempre isso dá totalmente certo. Vez ou outra a dor é forte demais, o travo amargo na boca é forte. E ali na hora o que nos ocorre é xingar, pensar em revides e vinganças, punir de modo exemplar, amaldiçoar alguém, ou a nós mesmos. Seja como for, acho que procurei em parte ver a minha crise seguida de uma internação que durou vinte e um dias como porta de saída de uma situação insuportável. Foi uma saída para a descoberta de que não há bem que sempre dure, mas também não há mal que não se acabe.
É claro que crises pessoais acontecem na vida de qualquer pessoa, embora em sua maioria tratem-se de episódios ou fases de dificuldades de diversas naturezas e consequências. E acabam por passar. Naquela ocasião acabei por me fazer vítima de mim mesmo e mergulhei numa tristeza profunda – ou terá sido um dessas síndromes a que algumas das psicoterapias dão um nome ou uma sigla? – de que só consegui me recuperar inicialmente com a ajuda de medicamentos pesados. À noite para conciliar o sono tomava um ansiolítico, acho eu, que me fazia dormir daí a alguns minutos, geralmente uns vinte a trinta minutos depois. De manhã, ao acordar tomava um antidepressivo, para enfrentar o dia com mais serenidade e uma atitude menos sombria. E depois mais um e depois mais outro.
Com todo o tempo do mundo livre, porque acabara de afundar com um negócio criado dois anos antes, tomei uma leitura várias vezes mal iniciada e nunca indo além da décima página. Uma história da colonização ocidental no Oriente, contada pelo professor e erudito S.K.M. Panikkar, um oriental, mais especialmente um indiano especialista na presença dos portugueses e dos holandeses na Índia. Num determinado momento fiquei intrigado sei lá com o quê e fui atrás de mais informações sobre a presença dos portugueses na história da Índia e também da filosofia e religiosidade indianas. A primeira leitura foi sobre o hinduísmo, coisa muito complicada por todas aquelas expressões em sânscrito e páli, o que me entediou e cansou bastante, e não chegou a me motivar para um aprofundamento. Acho que por uma sequência natural me deparei com um primeiro texto sobre filosofia indiana e logo a seguir sobre budismo.
Foi a primeira vez que li sobre o budismo e a história do Buda. A maneira singela que é a principal característica do pensamento budista me encantou. Aprofundei-me na leitura e busquei contato com grupos budistas e centros de meditação motivado pelas perspectivas de conquistar a tal paz de espírito mais do que esse lugar comum que é a felicidade. À época era tudo que eu queria. Achava-me carregado de culpas, ressentimentos, tristezas e raivas, muitas raivas. Ou seja, estava cem por cento enquadrado naquilo que o budismo se propõe a eliminar. Minha carga de negatividade era respeitável.
Por fim, fiz uma descoberta que fez a minha vida dar uma reviravolta. Pela internet cheguei ao site do Dhamma Santi, um centro de meditação localizado em Sacra Família, distrito municipal próximo a Vassouras, no interior do estado do Rio de Janeiro. Fiz minha inscrição na mesma hora e algumas semanas depois parti para o Dhamma Santi, de armas e bagagens. Era inverno. Comigo levava quase um enxoval para enfrentar algum frio e onze dias de afastamento e dez dias de curso. Em silêncio. Sem comunicação interpessoal...
Tenho de fazer um parêntese. Nunca fui bem sucedido em minhas experiências com as espiritualidades. E nas poucas experiências tidas e havidas o resultado ao fim sempre foi de ceticismo não apenas em relação à própria prática e o corpo da crença, como também em relação a praticantes e sacerdotes ou mentores. É que tenho um modo de pensar muito marcado por um certo racionalismo – a que, diga-se de passagem, refiro-me sempre com ironia e recriminação a mim mesmo e a quem me é similar. Sou, pois, uma pessoa “mental” ou como bem diz minha amiga L, sou “cerebrizante demais”.
Pois bem. Minha busca na ocasião se orientava para as tradições theravada e mahaiana por não serem religiosas, não sem antes resvalar também no budismo chan (chinês) e zen (japonês), que surgiram da tradição budista. Não fui inicialmente muito feliz por inúmeros motivos. Cheguei mesmo a me programar para participar de grupos de estudos e debates, mas isso também não teve qualquer resultado. Fui para Sacra Família, assim, sem qualquer conhecimento prévio da prática de meditação, mas um pouco que fosse com uma noção estereotipada de que meditação seria sentar-me em uma certa posição, “entrar em alfa”, sorrir e “meditar”, pensar em algo como uma maneira que me estampasse no rosto felicidade, paz e harmonia, uma nova razão de viver... Uma espécie milenar de auto-ajuda mística, “espiritualizada”. É quase isso, mas não é isso.
A experiência iria, pois, se mostrar um pouco diferente do que talvez eu e outras pessoas pudéssemos esperar.
Encarei uma viagem cansativa, com inúmeras baldeações entre ônibus e trens, alguns acidentes com a bagagem, mas também pelo inusitado de uma viagem a custo zero, sem dúvida excitante, para o centro de meditação.  Iria participar de um curso de meditação por dez dias, submetidos todos à total segregação dos sexos e a um voto de silêncio ou, mais do que isso, de não comunicação de qualquer natureza com companheiros e companheiras de jornada – fosse por palavras, pelo olhar ou por gestos.
À chegada por volta de meio-dia fui recebido com especial simpatia pelas pessoas que lá se encontravam e me ofereceram uma refeição vegetariana deliciosa. E, em seguida, um formulário para preenchimento com informações pessoais, em grande parte coincidentes com aquelas já fornecidas no pedido de inscrição. Depois de entregar o formulário recebi orientação quanto a acomodações, para onde me dirigi com minha bagagem. As instalações são despojadas, mas novas, agradáveis, limpas e muito bem conservadas. O quarto era simples com paredes em tijolo aparente ou estuque de cimento e espaço para três camas. Em frente, um banheiro coletivo com chuveiros e boxes com privadas e uma grande bancada com pias. Tudo muito limpo. Desembrulhei roupa de cama e travesseiro e arrumei a cama. Em seguida acomodei minha mala e fui para a área de encontro com outras pessoas.
No meio daquela tarde houve uma reunião logo depois da inscrição e da orientação introdutória – entre duas e quatro horas da tarde – com as pessoas que iriam participar do curso e foram feitos esclarecimentos quanto à rotina e aos procedimentos e a um código de disciplina a serem observados. Os cursos de dez dias, pelo que entendi logo, são introdutórios à meditação Vipássana em que a técnica seria explicada em detalhes. O curso iria começar ainda naquele mesmo dia, seguiria por dez dias inteiros de meditação e silêncio, para terminar na manhã do 11° dia por volta das 7:30 da manhã.
Os grupos de alunos e alunas, já estavam segregados por uma fileira de mesas de um dos refeitórios. Chamou a minha atenção o predomínio de gente bem jovem e uns muito poucos “coroas”. A aparência era de gente normal, sem aquele jeito de hippie ou “bicho grilo”. Era constituído de alunos e alunas novos, iniciados que iriam participar do curso pela primeira vez, e alunos e alunas antigos. Estes já haviam participado de pelo menos um curso de dez dias.  No final da tarde foi servida uma sopa, aliás, bem gostosa, daquele tipo que tem de tudo um pouco. No início da noite houve uma primeira sessão coletiva de meditação, obrigatória, no salão de meditação. Contou com a participação de todas as pessoas que estavam no centro, quer como alunos, quer como servidores – aqueles que voluntariamente exercem tarefas de assistência a alunos e alunas sob a forma de orientação, atendimento de necessidades de qualquer natureza, além de zelarem pela disciplina, assim como cuidarem das tarefas de cozinha, limpeza e arrumação. Enfim, o que fosse.
O salão de meditação dispõe de uma área de uns duzentos metros quadrados ou mais, suficiente para acolher com bastante conforto umas oitenta a noventa pessoas sentadas sobre tapetes, almofadas ou mesmo bancos e cadeiras. É feita uma segregação física de sexos de um lado e de outro do espaço para que não haja interferências na concentração, regra que nem sempre é respeitada. Não foi exigida e sequer mencionada a adoção das posições de lótus ou meio lótus, aquelas das pernas cruzadas uma sobre a outra. Houve uma rápida menção a manter pescoço e costas eretos, mas sem rigidez, para atingir maior profundidade na meditação, e assim dissipar melhor preocupações e problemas que bloqueiem sua mente. A única ênfase foi a do silêncio que em verdade se traduz por não comunicação. Por todo o tempo do curso, o que, aliás, faz muito sentido, mas não foi explicado ali. É importante manter condições que permitam concentração da mente por todo o tempo.
É área de silêncio, tanto quanto a sua área imediatamente vizinha. Este silêncio só é quebrado pelas palavras gravadas em CD de S.N. Goenka – o guia espiritual dessa comunidade, uma espécie de guru leigo –, e muito ocasionalmente do professor assistente, cujo nome muito tempo depois vim a saber chamar-se Arthur. Uma figura incrível. Muito magro, cabelos mais do que encanecidos, brancos. Olhos azuis muito claros e um ar de monge americano que embarcou num junco tipicamente indiano, o que é o modo de exprimir que aderiu a algo não muito congruente com as suas raízes.
Ou então o silêncio é quebrado pelos próprios alunos nos horários de entrevistas com este mesmo professor assistente. Há uma modalidade que consiste de uma sequência de chamadas pelo nome. Em seguida em grupos de quatro ou cinco alunos convocados, sentam-se sobre uma almofada à frente do professor-assistente que pergunta a cada um por vez se está indo tudo bem, se tem encontrado dificuldades, coisas relacionadas com a prática e o aprendizado, mas sempre de modo muito superficial. Uma outra sessão se realiza à noite, depois da última sessão de meditação em grupo. As questões levantadas têm maior profundidade para os alunos, mas tratam de questões também relacionadas à prática. Nestas ocasiões fazem perguntas, transmitem suas impressões e inquietações. Via de regra, o professor-assistente arremata com uma resposta simples de ordem prática. Mas, enfim, falam. É verdade que nem todos os alunos participam desta sessão noturna, mas alguns, poucos, se empenham em saber o que se passa com alguns dos companheiros de jornada, mesmo que não tenham participação ativa. Nem por isso os alunos se comunicam, ou devem se comunicar, entre si em qualquer oportunidade.
Em toda a área do centro há placas indicativas de passagem proibida para evitar que os alunos cruzem com as alunas. Cartazes indicam horários da programação diária, informações sobre disciplina, ética e práticas especiais, orientação sobre estágios especiais do curso, e assim por diante. À primeira vista a programação impõe um regime árduo. São doze horas diárias de atividades dedicadas ao aprendizado, a maior parte voltado para as práticas, com mais umas poucas horas de descanso e, claro, refeições, higiene pessoal e uso da lavanderia. O total de uma jornada diária é de dezessete horas e meia. Parece cansativo, mas não é. Acho que o silêncio e a calma que dominam o ambiente ajudam a relaxar, e as sessões apresentam lá as suas dificuldades, mas não tiram as forças. Só é preciso imbuir-se do “espírito da coisa” e ter paciência.
Participei, assim, pela primeira vez de um curso de meditação. A rotina diária dos dez dias de curso estabelece certas obrigações. Foram dez dias submetido a um voto de silêncio, ou melhor de não comunicação por qualquer meio. O regime implicou submeter-me a uma programação intensa, porque requer um esforço grande para o controle da atenção e o direcionamento da atenção sobre sensações no corpo; e extensa, por contar com uma programação que se iniciava às 4:30 da manhã e se estendia até as 9:30 da noite, numa sucessão de oito sessões diárias. Destas, duas das matinais teriam duração de 2 horas enquanto à tarde, necessariamente em grupo, cada uma teria 1 hora. À tarde há 2 sessões, cada qual de 1 hora e meia, que podem ser tanto no salão em grupo como nos aposentos ou em celas de isolamento. Em qualquer dessas sessões senta-se ao chão, ou sobre uma banqueta ou numa cadeira – importante mesmo é buscar o maior conforto possível. Além dessas sessões de treinamento, à noite há uma palestra de hora e quinze sobre a prática e aspectos que me pareceram doutrinários, e duas sessões, após o almoço e após a ultima sessão diária, para entrevista com o professor-assistente para tirar dúvidas e esclarecer a razão de certas regras, comportamentos permitidos e não permitidos, questões, digamos, também doutrinárias, e o que mais fosse apresentado. Os alunos e alunas são acordados às 4 horas da manhã por um gongo e devem se recolher às 9:30 da noite.
A primeira sessão de meditação diária, que pode ser cumprida no salão de meditação com uma sucessão de cânticos entoados em páli na maioria das ocasiões por S.N. Goenka, ou Goenkaji, como é também conhecido, ou ainda mais precisamente, Pujya Shri Satya Narayan Goenka, um empresário birmanês que abraçou a prática. Não no primeiro dia, mas nessas sessões no início do dia existe a possibilidade de se exercitar e buscar a concentração tanto nos aposentos de dormir como em celas, estas em horários estabelecidos por uma programação própria destinadas a um e outro dentre os alunos antigos.
S.N. Goenka é um professor leigo de meditação vipássana e um dos líderes de uma das correntes do chamado movimento Vipássana. Todas as sessões são regidas por seus cânticos em páli e por palestras, servindo-se de sua voz de barítono, e em inglês meio arrevesado, sempre seguidas de uma tradução em português falado por uma voz feminina muito agradável, em ritmo e linguagem um tanto irregular, mas mesmo assim bastante suave e repousante.
Como já disse, o curso consiste de um aprendizado dedicado ao controle da atenção sobre sensações inicialmente da respiração e em seguida sobre sensações no corpo todo. A atenção sobre a respiração conta com um primeiro ciclo de sessões que dura três dias. O ciclo de aprendizado da atenção sobre as sensações corporais cobre os demais dias do curso e, ao final, é complementado por um breve período de metta bhavana, a meditação sobre o amor incondicional.
A programação diária e os horários do curso são universais, isto é, aplicam-se a todos os cursos de Vipássana através do mundo, seja no Ocidente, seja no Oriente, na Europa, na América Latina ou nos Estados Unidos.
A bem dizer, meditação é simplesmente um ato da mente que pode se manifestar de uma ou outra maneira. A maneira mais comum é a de manter uma conversa com nós mesmos. Essa forma coloquial e interior de meditação faz parte do nosso dia a dia e se manifesta constantemente quando estamos caminhando ou correndo na praia, dirigindo um automóvel, esperando atendimento no médico ou no dentista, na fila do caixa de banco, e assim por diante. Nossos pensamentos fluem naturalmente entre uma e outra ideia sob a forma de reminiscências remotas ou não, de planos realistas ou fantasiosos, de auto-recriminação por ter ou não ter feito algo, e tantos outros pensamentos que o consciente nos traz à mente. Assim resolvemos ou nos revolvemos com nossos problemas do cotidiano. Ou, por qualquer razão subconsciente, lembramos de telefonar para alguém que não vemos há tempos.
A outra maneira de meditar é voltar a nossa atenção para uma ideia e nos manter concentrados sobre essa ideia buscando interpretar e apreender significados, conjecturar de soluções para os mais diversos problemas, de naturezas tão distintas quanto um projeto para construção de uma casa, uma tese acadêmica, os primeiros esboços de uma obra de arte, a composição de uma melodia ou de um poema. Ou escrever um texto de qualquer natureza, um livro, um artigo, uma carta. Esta modalidade de meditação é um ato mental que pode empregar ou não uma técnica bastante singular e específica que visa à reflexão e requer uma espécie de “relaxamento ativo” do corpo e da mente, cabe frisar, sem ser este o seu objetivo principal.  A atenção que se concentra em um foco determinado e o relaxamento, no entanto, apenas afastam pensamentos e sentimentos alheios ao objeto de meditação os quais impedem uma pessoa de se aperceber do real e mais profundo significado das coisas e de se colocar em sintonia única com o próprio âmago do objeto da meditação.
Como regra, a meditação não estará necessariamente associada a uma prática religiosa, embora possa em geral ser considerada uma forma de prática espiritual com propósitos místicos. Ou não. 
Como muitos dos atos intelectuais, o exercício da meditação sistematizada requer um disciplinamento que o precede e o dirige na ordenação de ideias. Disciplinar a atenção sobre percepções é a primeira etapa e é de fácil compreensão quanto ao método e procedimentos a serem seguidos. Disciplinar a atenção é, no entanto, um exercício extremamente difícil dada a complexidade da nossa mente e o funcionamento do nosso cérebro. A este disciplinamento deve se seguir a concentração, o esforço de se conduzir mentalmente de modo a selecionar e perseguir um único pensamento – o que pode ser atingido, mas também requer um considerável esforço de disciplina sobre a atenção e uma persistência férrea, realmente extraordinária, afora a disciplina de se manter concentrado e vigilante já que a mente é continuamente assediada por inúmeros pensamentos que a distraem do foco escolhido.
Eis aí algo de que não suspeitamos e que se apresenta como um obstáculo difícil de superar: desenvolver a capacidade de concentrar-se, acalmar-se e tornar-se equânime diante de temas complexos e situações  tensas passadas ou iminentes, recuperar energias depois de uma atividade física ou emocionalmente desgastante. Assim como também para satisfazer uma necessidade espiritual que exija um estado de consciência elevada ou de êxtase devocional.
O que diferencia a meditação estruturada e sistematizada que iremos aqui abordar daquele ato mental de meditação natural e inerente à mente e consciência de todo ser humano?  É o uso frequente e o cultivo de uma disciplina da atenção e bem assim a prática da concentração como pré-requisito àquela meditação que permite a qualquer indivíduo atingir um estado de consciência plena e equânime.
Este estado é que irá permitir a percepção direcionada para o seu objeto de meditação, sem distrações e sem vieses, na apercepção do objeto que se persegue e sua natureza particular; na compreensão dessa natureza e no raciocínio dedutivo ou indutivo necessário a conclusões, soluções de problemas, atos de criação, de devoção, e assim por diante.
É importante ter em mente que a meditação nada tem a ver com dedicar-se a uma vida monástica ou ascética que leva alguém a se isolar do mundo. Também não é, sobretudo, uma prática exclusivamente religiosa ou tipicamente de crenças de qualquer natureza. Não há necessidade senão de cultivar alguns hábitos e de modo algum mudar a sua vida de modo drástico. O que muda é a sua atitude diante da vida, das circunstancias e dos fatos e das pessoas com quem você se depara. A verdadeira meditação requer o desenvolvimento de uma qualidade mental em cada um de nós que é simplesmente a de uma re-visão da realidade, dos eventos, sobretudo adversos, isenta de sentimentos ou impulsos negativos, ou mesmo a de uma sublimação de pensamentos, sentimentos ou valores psicoemocionais negativos daquilo que diga respeito ao passado e ao futuro.
E que benefícios isto pode nos proporcionar? São muitos como veremos adiante, mas podemos começar por um benefício imediato, obtido quase imediatamente ao se iniciar o processo de aprendizado. Refiro-me à eliminação da insônia. E depois de um curto tempo de prática, a gradual eliminação das reações irracionais e impulsivas a fatos e circunstâncias em que nos sentiríamos hostilizados, humilhados, indignados e furiosos.
É fato que meditação é um termo que é frequentemente empregado de modo equivocado – indicando, por exemplo, uma espécie não bem definida de êxtase místico. Se bem que estas experiências místicas sejam possíveis em níveis elevados da prática, o que na realidade se pode pretender com a meditação é genericamente toda uma série de práticas contemplativas tanto quanto de reflexão. Não é demais insistir, esta última não necessariamente de caráter religioso ou místico, mas muito especialmente de natureza filosófica, visando a desenvolver uma maior concentração e uma consciência plena de se situar diante da realidade. E sobre ela refletir.
Cabe ponderar que ao referir-me à natureza filosófica de uma prática meditativa estou me referindo também à reflexão sobre e em torno de um conjunto de eventos e experiências ou princípios, critérios e valores eminentemente pessoais, que devem reger nossas vidas em meio à sociedade, ou a despeito dela, e de seus princípios, critérios, normas e valores. Refere-se assim ao norteamento próprio para um modo bem pessoal de viver; e fazer escolhas de qualquer natureza, ou algo, é claro, como a busca da paz de espírito e harmonia no mundo como “filosofia de vida”. Neste caso, nada ou muito pouco tem a ver com a filosofia acadêmica, muitas vezes enfadonha, intimidante, que mais serve à especulação e às considerações nem sempre compreensíveis para as pessoas comuns. E menos ainda aplicáveis aos seus cotidianos.
Algumas considerações têm de preceder o início desta viagem.
Em primeiro lugar, devo declarar que não fosse a experiência vivida seria temerário tecer comentários sobre este assunto que é momentoso, em vista das vicissitudes do dia a dia de todos nós. Segundo, tenho praticado de modo mais ou menos regular os exercícios que me foram mais propícios à prática, não me permitindo excluir eventuais experiências com exercícios e métodos com que me deparo em busca de alternativas. Ou simples experimentações.
Seria também temerário fazer considerações sobre a eficácia e as dificuldades da meditação me baseando exclusivamente em relatórios médicos e psicológicos, além das advertências tão frequentes da parte de mestres e orientadores em geral. A experiência pessoal, própria, e os relatos de outras pessoas são, sem dúvida mais valiosos. Posso afirmar que nada é comparável à experiência vivenciada diretamente. Daí, permito-me fazer algumas advertências preliminares.
Gostaria de evitar certos detalhes mas não há como explicar complicações da mente humana sem entrar no assunto que se segue. Peço desculpas por isso e deixo a critério de cada um passar. Se for o caso, pule os próximos seis, ou talvez menos, cinco parágrafos. 
A primeira delas é a de que a mente é naturalmente irrequieta. A divagação, a distração, a dispersão, são processos mentais absolutamente normais, que às vezes parecem insuperáveis. Não são. Apenas a razão advém da constituição do cérebro humano e da complexidade da mente, tanto em nível consciente quanto subconsciente. Do ponto de vista das neurociências, e admitindo a teoria da funcionalidade das regiões do cérebro, temos de levar em conta que a relação entre mente e cérebro, embora ainda não inteiramente conhecida, já apresentou inegáveis progressos realizados pelas neurociências. As contribuições das neurociências – em especial, a neuroanatomia, a neurofisiologia, a neuroendocrinologia, a psicofisiologia, as neurociências cognitivas e a neuropsicologia – têm sido de grande valia para o conhecimento e compreensão dos processos mentais do ponto de vista físico. Grande contribuição vem sendo feita por estes ramos de estudo e pesquisa em torno da atenção, da percepção, da consciência e da meditação. Há, pois, alguns fatores a serem preliminarmente levados em conta. As noções que se seguem são muito importantes para enfrentar e superar dificuldades ao longo das práticas necessárias à meditação correta. Não são essenciais, mas ajudam muito a aceitar as dificuldades como algo natural e inerente à condição humana.
O cérebro humano divide-se em dois hemisférios, esquerdo e direito, sendo constituído de algo como 80 bilhões de células, e nele podemos identificar certas estruturas que correspondem às chamadas áreas funcionais.
O hemisfério direito é responsável pelo pensamento simbólico e pela criatividade, mas o hemisfério dominante é o esquerdo, que é responsável pelo pensamento lógico e pela competência comunicativa - embora pesquisas recentes contrariem isso e procurem demonstrar que partes do hemisfério esquerdo destinam-se também à criatividade enquanto, em sentido inverso, no direito haverá partes que também respondem pelo raciocínio lógico e pela comunicação.
No hemisfério esquerdo localizam-se duas áreas especializadas, o córtex responsável pela motricidade da fala e o córtex responsável pela compreensão verbal. Acho que todo mundo sabe que o córtex motor do hemisfério esquerdo controla o lado direito do corpo, e o córtex motor do hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo. Cada córtex motor contém um “mapa” da superfície do corpo: perto da orelha, está a zona que controla os músculos da garganta e da língua, segue-se depois a zona dos dedos, mão e braço; a zona do tronco fica ao alto e as pernas e pés vêm depois, na linha média do hemisfério. As percepções ou sensações percebidas em grande parte vêm daí.
As diferentes partes do córtex cerebral são divididas em quatro áreas chamadas de lobos cerebrais, tendo cada uma funções diferenciadas e especializadas. Os lobos cerebrais são designados pelos nomes dos ossos cranianos nas suas proximidades e que os recobrem. O lobo frontal fica localizado na região da testa; o lobo occipital, na região da nuca; o lobo parietal, na parte superior central da cabeça; e os lobos temporais, nas regiões laterais da cabeça, por cima das orelhas. Os lobos parietais, temporais e occipitais são responsáveis pela produção das percepções resultantes daquilo que os nossos órgãos sensoriais – nariz para olfato, ouvidos para audição, etc –  detectam no meio exterior e pela produção das informações que fornecem sobre a posição e relação com objetos exteriores das diferentes partes do nosso corpo.
É fácil assim concluir que o funcionamento simultâneo de todas as áreas cerebrais já é razão para um turbilhão de sensações, se considerarmos destarte nossos sentidos em funcionamento. E, independentemente de estarmos com a nossa atenção voltada para cada uma dessas sensações, estaremos continuamente percebendo calor ou frio, aragens de vento e secura ou umidade da atmosfera; sons e ruídos dos ambientes onde estivermos; o toque de roupas, assentos em que nos acomodamos e pisos por onde caminhamos; a sensação do ar entrando em nossas narinas e os odores de ambientes e sabores que estão em nossas bocas. A posição e lugar, o momento e hora do dia em que nos encontramos, fazem parte de nossas propriocepção, as sensações de tensão muscular, de posição, de movimento, de equilíbrio, de deslocamento Neste caso os órgãos envolvidos são os músculos, os tendões, as articulações, o labirinto  e os estímulos são mecânicos : vibrações, tensões, variação de posições, aceleração linear e angular.
O que realmente aqui importa mesmo é ter em conta que nossos terminais nervosos percebem cada uma dessas sensações embora não nos demos precipuamente conta dessas percepções, isto é, não transferimos estas sensações para o nosso consciente, não estamos com o nosso pensamento voltado para elas, certo?
Errado.
Nosso cérebro e nossa mente estão processando essas informações e as enviando para nosso consciente e subconsciente – dando causa e origem ao armazenamento de sensações, sentimentos, emoções. A mente consciente é, porém, seletiva. E em princípio estas percepções serão dirigidas para nosso subconsciente, a não ser que por este ou aquele motivo nossa percepção passe para o plano do consciente devido a alguma exacerbação dessas sensações. Aí a nossa percepção se acentua e reagimos. E o quê isto tem a ver com meditação?
Tudo.
Veremos que dois exercícios estarão presentes praticamente senão em todas, na maioria, das formas de meditação com a finalidade de concentrar nossa atenção em um único objeto. O exercício da atenção sobre a respiração e o exercício da atenção sobre as sensações corporais são comuns a praticamente todas as técnicas desta ou daquela tradição filosófica, religião ou terapia. Exceções são algumas das práticas devocionais de caráter religioso e a meditação de natureza eminentemente intelectual quando voltada para os processos criativos, sejam de natureza especulativa com propósitos filosóficos ou artísticos. Não há relatos de estudos empíricos sobre estas relações. Mas existem relatos, por exemplo, de práticas adotadas na área desportiva para aprimoramento de técnicas e de recuperação de desportistas contundidos.
Como já vimos, meditar é uma condição natural da mente humana quando dedicamos o pensamento à interpretação e reflexão sobre fatos do cotidiano – sejam eventos familiares, profissionais, de entretenimento, do trânsito, e tantos outros mais. São aqueles momentos de uma espécie de transe, de olhar vazio, ensimesmados, quando nossa atenção está alheia ao que acontece à volta e nos voltamos para nós mesmos, para o nosso interior.
É bom, pois, salientar que aqui estaremos nos referindo às formas de meditação estruturada e sistematizada, que obedece a um certo método, mesmo aquele que possa se chamar de intuitivo.
Meu intuito aqui é abordar o significado de meditação e práticas conexas, os fundamentos das tradições religiosas e os tipos de meditação praticados, tanto quanto os relatos de pesquisadores nos tempos mais recentes sobre os efeitos da meditação sobre pacientes médicos nas diversas especialidades onde mostraram ser benéficos. Este último elenco irá apontar fundamentos e práticas sempre levando em conta os propósitos buscados por praticantes para que qualquer candidato à prática faça a sua opção de acordo com o significado que busca. Não poderíamos assim desprezar os fundamentos de quaisquer práticas por mais exóticos e distantes que estejam de nossa cultura e experiências pessoais.
A esta altura, creio que precisamos nos deter brevemente sobre a motivação que nos leva ao interesse pela meditação e, em seguida, à prática. Devemos fazer uma reflexão sobre essa motivação – ou motivações. Esta reflexão deverá levar em conta algumas premissas importantes para a nossa compreensão de todos os fatores que são intervenientes neste quadro de análises.
Por um motivo ou outro somos motivados a praticar meditação, ou algo que seja entendido como tal, tendo por fim ou meio uma busca de paz e harmonia e, para tanto, respostas a nossas inquietações. Estas inquietações podem ser de natureza espiritual ou não, já que em alguns casos a meditação é prescrita para aliviar sintomas dentro de um quadro patológico que não se identifica imediata e diretamente com as aflições da alma, mas tão apenas do corpo.
Reside neste aspecto a razão de entender a meditação como uma prática que atende a propósitos espirituais tanto quanto terapêuticos. Os propósitos de natureza espiritual serão considerados também quanto a motivos religiosos, via de regra devocionais, tanto quanto aqueles que se voltam para motivos não-religiosos como é o caso das motivações de ordem psicológica, ou mesmo de pura criação intelectual com as de criação artística.
Para muitos destes propósitos é preciso contar com considerações de natureza filosófica, em qualquer das acepções, na medida em que os fundamentos das diversas linhas de pensamento orientam a prática, tanto quanto considerações de natureza psicológica, neurológica e supletivamente até mesmo de linguística e semiologia. Estas últimas, como veremos adiante, irão nos orientar para a correta compreensão de significados preciosos.
Algumas considerações sobre meditação
Há inúmeras ideias por vezes contraditórias a propósito do que é meditação. A abordagem fundamental é, porém, a necessidade de o meditador compreender a natureza de sua atitude mental ao invés de se debater com ela.
Meditação significa originalmente refletir, ponderar, pesar, medir, voltar sua atenção para um objeto qualquer de interesse especial no sentido de concentrar-se sobre uma ideia. Não é de se estranhar que se confunda com concentração, que significa originalmente “voltar-se para o centro”, enquanto consciência plena significa atenção única e intensa.
Uma interpretação incontroversa, mesmo dentre inúmeras outras aceitas, é de que a meditação consiste de uma reflexão que se aprofunda detidamente sobre um objeto específico, de qualquer natureza, seja material ou imaterial. Será, desse modo, um pensamento profundo, atento, que se volta para um objeto particular e para este propósito requer a concentração do espírito, sintonizar o espírito, acalmá-lo, compreender e, por fim, libertá-lo para a reflexão.
Esta última expressão é o próprio cerne de uma meditação porquanto indica como seu objeto a análise ou ponderação de uma ideia, e não apenas qualquer “coisa”, que esta “coisa” qualquer, sim, pode ser objeto de uma mentalização. Cabe aqui também distinguir, portanto, meditação de mentalização. Esta última é mais especificamente a capacidade de reconhecer, sem julgar ou mesmo sem qualquer forma de análise ou ponderação, o que acontece em um dado momento no presente. Há quem considere que a mentalização pode induzir a realização de um intento por sugestionar alguém ou a si mesmo, isto é, dominar a vontade de uma pessoa, induzindo-a a agir ou se comportar de uma determinada maneira – como magos fazem com o público. Há ainda quem acredite ser possível alcançar intentos e obter objetos de desejo pelo controle mental dos eventos reais. Este tema não será estudado aqui por falta de fundamentação. E também por não ser este o propósito almejado na meditação que, veremos mais adiante, em certos casos recomenda abandonar apego e, mais ainda, rejeitar obsessões.